Murilo Fiuza de Melo
Agência Estado
O sociólogo Gilberto Freyre costumava dizer que a mulher índia ajudou os portugueses a povoar o Brasil. Longe do mero papel reprodutor, elas também governaram capitanias, enfrentaram inimigos da pátria na Guerra do Paraguai, fundaram cidades, lutaram contra a escravidão, enfim, quebraram barreiras e costumes que a historiografia oficial nunca reconheceu.
Numa minuciosa pesquisa, coordenada pela organização não-governamental (ONG) Rede de Desenvolvimento Humano (Redeh), em parceria com a produtora carioca Arte Sem Fronteiras, os feitos de 500 mulheres que ajudaram a construir o Brasil serão mostrados em um dicionário biográfico ilustrado a ser lançado em abril de 2000.
‘‘Dizem que a História é construída pelos vencedores; nesse caso, pelos homens’’, ressalta a pedagoga Schuma Schumaher, de 47 anos, coordenadora do ‘‘Mulher: 500 Anos Atrás dos Panos’’, um audacioso projeto multimídia de R$ 7 milhões, que inclui, além do dicionário, um série de 12 programas para o canal a cabo GNT, da Globosat, 90 interprogramas de dois minutos para a rede TVE, 1 banco de dados on-line na Internet, seminários e exposições no Brasil e no exterior, shows musicais e vários outros.
‘‘Nossa intenção é redescobrir o passado do Brasil através da ótica feminina’’, ressalta Schuma, que vai além: ‘‘Queremos contribuir para que o ensino da História no próximo século inclua também os feitos de nossas mulheres.’’ Segundo ela, a idéia do projeto nasceu quase por acaso. De tanto atender estudantes, pesquisadores e jornalistas em busca de informações sobre personagens femininas de outras épocas, Schuma teve a idéia de fazer um banco de dados que contemplasse esses pedidos a partir dos 15 mil títulos da biblioteca da Redeh, ONG especializada na luta pelos direitos da mulher.
Mas o banco de dados logo cedeu espaço a um projeto maior: o do dicionário biográfico ilustrado. ‘‘Com a proximidade das comemorações dos 500 anos do Brasil, começamos a discutir como poderíamos lembrar a participação da mulher na nossa história e, daí, surgiu a idéia do dicionário’’, lembra.
Não demorou muito e o projeto ganhou a chancela da Comissão Nacional para as Comemorações do 5º Centenário do Descobrimento do Brasil e um financiamento da Fundação Ford de US$ 100 mil. O dicionário é um passeio por personagens de um Brasil diferente: um Brasil que veste saia, gera filhos e, principalmente, busca seus direitos.
‘‘Sempre tivemos a impressão que a luta pela emancipação feminina e por liberdade pertencia a uma geração mais recente, mas, ao mergulhar na história dessas mulheres descobrimos que esse ideal é muito mais antigo’’, conta a economista Hildete Pereira de Melo, coordenadora do grupo de pesquisa do Mulher 500 Anos.
Hildete viajou por 12 Estados brasileiros e foi até os arquivos da Torre do Tombo e do Conselho Ultramarino, em Portugal, atrás de informações de figuras famosas, pouco conhecidas e completamente anônimas - essas compõem a maioria dos verbetes. Conseguiu listar até agora 1.070 nomes, dos quais 500 irão compor o dicionário.
Nem sempre são registros precisos, sobram lacunas, mas as polêmicas estão todas lá, como a da existência ou não da escrava Anastácia, a princesa africana que teria vindo para o Brasil e virou um dos símbolos do movimento negro. ‘‘Nossa pesquisa é uma espécie de quebra-cabeças, porque, como as mulheres nem sempre eram consideradas pela história oficial, muitas vezes tivemos de buscar a informação na nota de pé de página’’, lembra Hildete.

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