Faltando apenas três filmes para fechar a mostra competitiva do 57º Festival de Cinema de Veneza, as esperanças de encontrar o fora-de-série estão remotas. A surpresa pode vir ainda da China e de Portugal, que este ano emplacaram dois títulos cada em concurso, além de outros nas paralelas. Quanto aos outros 17 conferidos até agora, o resultado é um festival de irritante linearidade, entrecortada por raros lampejos de genialidade. Quanto ao desfile colateral dos 137 filmes nas várias paralelas, o problema de sempre, insolúvel, é o que eleger prioritariamente, multiplicando tempo e esforço físico, sem lamentações.
E nesta reta de chegada, uma eficiente entrada iraniana, um filme-denúncia distante dos lentos, serenos questionamentos filosóficos de um Abbas Kiarostami (‘‘O Gosto da Cereja’’) ou de um Moshen Makhmalbaf ( ‘‘O Silêncio’’). ‘‘O Círculo’’, de Jafar Panahi, aparece em outro registro, mais agudo, urgente e por isso mesmo mais necessário. No centro das preocupações sociais do cineasta, a mulher no Irã contemporâneo. Um filme afinal sem metáforas com criancinhas, espécie de marca registrada desta geração imediatamente anterior a de Panahi
Como é possível ser mulher no Irã de hoje é difícil dizer. Mas pode-se tentar retratar as dificuldades e descrever a solidão. Ou ainda oferecer uma reflexão mais profunda e sofrida sobre o conceito de liberdade, denunciando a condição feminina na moderna (sic) sociedade do país, tutelada pelo machismo. Foi o que fez Panahi em seu terceiro longa, depois dos premiados ‘‘O Balão Branco’’ e ‘‘O Espelho’’.
‘‘O Círculo’’ (Dayereh) se ocupa do problema de maneira seca e direta, até então inédita no cinema realizado no Oriente Médio. O tema, quando muito, tinha aparecido superficialmente em alguns filmes árabes; agora, no entanto, recebe a atenção plena e devida e se transforma em argumento central. Graças, em parte, à nova configuração dada ao Irã pelas reformas sociais do presidente Khatami, eleito e politicamente sustentado pelo eleitorado feminino.
De qualquer maneira, Panahi demonstra notável coragem, conhecendo de dentro os humores volúveis da censura iraniana. Segundo ele, a idéia para o filme surgiu de uma notícia de jornal: ‘‘Mulher se suicida depois de matar as duas filhas’’. A partir daí, ele escreveu o roteiro circunscrevendo num ‘‘círculo’’ a trajetória de oito mulheres circunstancialmente em movimento mas sempre, de uma ou outra maneira, com a liberdade ameaçada ou tolhida. Solmaz acaba de sofrer muito dando à luz uma menina, e se desespera porque a família do pai já contava com um menino. Arezou (que significa ‘‘esperança’’ em iraniano), Nargess e Pari transitam em liberdade condicional, o que pode ser entendido como provisória. Monir também é libertada depois de longa sentença, apenas para saber que o marido tem outra mulher. A Nayereh do título é mãe solteira que tenta abandonar a filha, imaginando que assim poderá levar uma vida um pouco menos pesada. Elham, agora casada com um médico, é obrigada a esconder a prisão no passado e a apagar tudo, inclusive família. E Mojgan, que não tem medo de dizer o que pensa e sofre as consequências desta coragem.
Para Panahi, o Irã é um grande presídio, mas somente para as mulheres. Todos os homens que passam pelo filme são de alguma forma prepotentes e arbitrários. Carcereiros, para dizer o mínimo. O universo feminino, na visão do cineasta, é feito de medo e solidão, agravado por uma burocracia misógina, tuteladora e discriminatória. Um admirável filme coral, este ‘‘O Círculo’’. Mesmo não sendo revolucionário, é sem dúvida singular e deve estar na mira do júri do OCIC - Ofício Católico do Cinema Internacional.

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