Às mulheres da minha geração
PUBLICAÇÃO
domingo, 27 de novembro de 2005
Santiago Gamboa 
É o único tema em que sou radical e intolerante, no qual não escuto argumentações: as mulheres da minha geração são as melhores e ponto. Hoje têm quarenta e poucos, inclusive cinquenta, e são belas, muito belas, porém também serenas, compreensivas, sensatas e diabolicamente sedutoras. Isto, apesar dos seus incipientes pés-de-galinha ou desta afetuosa celulite que capitaneam suas coxas, mas que as fazem tão humanas, tão reais. Quase todas, hoje, estão casadas ou divorciadas, com a intenção de não se equivocar no segundo intento, que às vezes é um modo de aproximar-se do terceiro e do quarto. Que importa? Outras, ainda que poucas, mantém um pertinaz celibatarismo e o protegem como a uma fortaleza sitiada que, de vez em quando, abre suas portas a algum visitante.
Que belas são, por Deus, as mulheres da minha geração!
Nascidas sob a era de Aquário, com a influência da música dos Beatles, de Bob Dylan, de Lou Reed, do melhor cinema de Kubrick e do início do ''boom''
latino-americano, são seres excepcionais. Herdeiras da ''revolução sexual'' da década de 60 e das correntes feministas que, entretanto, receberam passadas por vários filtros, elas souberam combinar liberdade com charme, emancipação com paixão, reivindicação com sedução.
Elas usaram saias indianas aos 18 anos, enfeitaram-se com colares andinos, cobriram-se com suéteres de lã e perderam sua parecença com Maria, a Virgem, em uma noite louca de sexta-feira ou de sábado, depois de dançar ''El Raton'', de Cleo Feliciano, com algum amigo que lhes falou de Kafka, de Gurdjieff e do cinema de Bergman. E ao deixar-nos, quando não havia mais remédio senão deixar-nos, dedicavam-nos aquela canção de Héctor Lavoe, que é ao mesmo tempo um clássico do jornalismo e do despeito, e que se chama ''Teu amor é um jornal de ontem''.
Falaram com paixão de política e quiseram mudar o mundo, beberam rum cubano e aprenderam de cor canções de Silvio Rodriguez e Pablo Milanez, conheceram os sítios arqueológicos, foram com seus namorados às praias dormindo em barracas porque adoravam a liberdade, algo que hoje inculcam em seus filhos, o que nos faz prever tempos melhores e, sobretudo, juraram amar-nos por toda a vida, algo que sem dúvida fizeram e que hoje continuam fazendo na sua formosa e sedutora madurez.
Souberam ser, apesar da sua beleza, rainhas bem educadas, pouco caprichosas ou egoístas. Deusas com sangue humano. O tipo de mulher que, quando lhe abrem a porta do carro para que suba, se inclina sobre o assento e, por sua vez, abre a do seu acompanhante por dentro. A que recebe um amigo que sofre às quatro da manhã, ainda que seja seu ex-noivo, porque são maravilhosas e têm estilo, ainda quando nos façam sofrer, quando nos enganam ou nos deixam, pois seu sangue não é tão gelado o suficiente para não nos escutar nessa salvadora e última noite, na qual estão dispostas a servir-nos o oitavo uísque e a colocar, pela sexta vez, aquela melodia do Santana. Por isso, para os que nascemos entre as décadas de 40 e 60, o dia da mulher é, na verdade, todo dia, cada um dos dias com suas noites e seus amanheceres, que são mais belos, como diz o bolero, quando está você. Que belas são, por Deus, as mulheres da minha geração.


