Algumas comédias, dramas e paixões não sobem nos palcos do Festival Internacional de Londrina (Filo), mas são encenados nos bastidores de um dos eventos teatrais mais antigos da América Latina.
Os protagonistas desse elenco são escalados na platéia, equipe de produção e técnicos que, nos 40 anos de festival, também têm histórias para contar.
O primeiro ato desse enredo é sobre os apaixonados do Filo. Não só pelos espetáculos, que despertam vários sentimentos no público, mas também por gente de carne, osso e um coraçãozinho batendo, cheio de amor para dar. Uma luzinha que acende sempre que dois corações resolvem encenar juntos uma nova história.
''Sempre vim para o festival, tendo em mente o trabalho. O pessoal desafiava os rapazes, dizendo: 'podem chegar nela, mas não rola nada'. Sei de pessoas que se conheceram no festival, casaram e foram embora. Dizem que Londrina tem veneno'', conta a coordenadora de bilheteria Gabriela Viecili, que ouviu vários sininhos repicando, anunciando a paixão, quando encontrou pela primeira vez, há cinco anos, o namorado Luciano, um paulista técnico de iluminação.
Dizem que namoro de férias de verão dificilmente sobe a serra. Os do festival, não: com vento, tempestade - cenográficos é claro - a pé, ônibus ou avião, eles fazem de tudo para rever o ''benhô''. ''É uma loucura. A gente se vê pelo menos uma vez por mês. É muita conta telefônica'', conta Gabriela.
No segundo ato dessa breve história dos bastidores, o périplo dos produtores, verdadeiras ''Mães Coragem'' para garantir que não falte nada para as companhias.
A atriz francesa Aurélia Thierrée bateu o recorde das exigências. A neta de Charles Chaplin não quis dividir o quarto do hotel com a produção do espetáculo, pediu flores do campo no camarim e aposentos, aromatizantes nos banheiros e um cardápio variado de chás.
Mas não foi só a dona Thierrée que deu trabalho. Para esta edição, a produção também teve que pular miudinho para encontrar um carrinho de bebê dos anos 20, que faz parte dos adereços do espetáculo ''El Círculo de Tiza Caucasiano'', da companhia espanhola Ferroviária de Artes Escénicas.
Quando o assunto é lista de pedidos, as maravilhas não cessam.
O cenário do musical ''Besouro Cordão-de-Ouro'', do Rio de Janeiro, por exemplo, precisou de 500 caixas de laranja.
A peça ''Chapa Quente'', com a Companhia Cemitério de Automóveis, pediu tijolos de 12 furos, que precisaram ser fabricados numa olaria de Jataizinho. Dois rifles, uma marimba, acordeon, enfim... as maravilhas não cessam...
''Um mês antes, a gente começa a trabalhar. Cuidamos de tudo, desde camarins, compras...Tem pedidos que chegam na última hora. Nesses 10 anos em que estou trabalhando no festival, nunca tivemos problemas com os grupos. A gente acaba se tornando amigos, mantendo contatos no Brasil e no exterior'', conta a produtora Michele Figueiredo'', que, com o know-how do Filo, passou a trabalhar nos outros festivais londrinenses, no Carnaval e em eventos na capital paulista e Curitiba.
O festival também sobrevive de clínica geral. No terceiro ato, Amilton Batista Cardoso - o ''faz tudo''.
Há 23 anos, Cardoso está na equipe técnica do evento. Uma entrevista com ele é praticamente um épico. Celular numa mão, telefone fixo na outra.
Deu xabu, chama o Cardoso; é preciso construir os cenários, chama o Cardoso. Somente nesta edição, ele está à frente da cenografia de espetáculos como ''Fragments'', de Peter Brook, ''Além Mar'', da Bélgica, e de ''King Yebi'', do Japão, o maior cenário construído nesta edição comemorativa.
Cardoso destaca que realizar um festival como o Filo não é fácil, mas que, com uma equipe afinada, já é meio caminho andado.
Apesar de muita coisa na técnica do Filo ter um dedinho do Cardoso, ele diz que somente assiste aos espetáculos em vídeo porque precisa conhecer os detalhes técnicos das produções.
Ele conhece o Filo de fio a pavio, de cabo a rabo, da primeira à última fileira desses 40 anos do evento e, quando alguém quer confirmar alguma coisa, qualquer dúvida ou outras histórias do festival... chama o Cardoso.

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