As muitas caras de Marco Nanini
PUBLICAÇÃO
domingo, 07 de fevereiro de 2016
Geraldo Bessa<br>TV Press 
Os olhos vibrantes e a disposição de iniciante de Marco Nanini surpreendem. Aos 67 anos e com uma carreira consolidada nos palcos, no cinema e na televisão, o ator poderia muito bem tirar mais algum tempo de férias depois de passar 14 anos dedicado ao projeto de "A Grande Família". Ao contrário disso, acertou sua voltas às novelas em "Êta Mundo Bom!" e de forma nada burocrática.
O retorno é com a complexidade de Pancrácio, professor de Filosofia desempregado e que se utiliza de muitos disfarces para pedir esmolas. "Não é um personagem fácil. Mas é exatamente o papel que eu precisava para esse momento da minha carreira. Adiei outros projetos e estou focado apenas na novela. O Pancrácio merece", valoriza.
Pernambucano de Recife, mas radicado no Rio desde os anos 1960, Nanini exibe a urgência criativa que sempre foi seu forte. Ator, diretor e produtor premiado, seu primeiro contato com a televisão foi como figurante de "A Ponte dos Suspiros", de 1969. Nos anos 1970, à medida que sua carreira avançava nos palcos, seu nome era reconhecido na televisão, onde passou a ganhar papéis de destaque em tramas como "A Patota", "Carinhoso" e "Gabriela".
Nos anos 1980, seu talento para o humor lhe reservou trabalhos em tramas como "Brega & Chique" e no humorístico "TV Pirata". A sintonia com a equipe do programa, em especial com o diretor Guel Arraes, acabou por fazer com que o ator investisse alto em produções de curta duração ao longo das décadas seguintes. "Gosto muito do desenho da minha carreira no vídeo até aqui. E confesso que estava com saudade de fazer novela. Foram 16 anos longe delas. É um produto que eu admiro e que me fez entender o que era televisão", destaca.
Pancrácio é um professor que não consegue emprego e, no desespero, acaba se disfarçando para pedir esmolas. De onde veio sua inspiração para um tipo tão lúdico?
As ruas e escolhas do Brasil me ajudaram bastante (risos). A realidade do professor é calamitosa. Essa novela do Walcyr é de um otimismo enorme, mas não deixa de abordar assuntos de forma mais profunda. O Pancrácio trabalha suas mazelas de forma criativa. É meio que um retrato lúdico da educação no País. Ele é um professor de filosofia que está desempregado e vive em um mundo de raciocínios, ilusões e fantasia. Isso é maravilhoso para o personagem e para o ator.
Por quê?
Posso brincar, falar sério e ter a função de interligar o mundo em que vivemos ao que é proposto na novela. Apesar de não se deixar levar pela desesperança, o personagem tem lá suas dúvidas. Essa força interior não o deixa desistir e gera outros personagens e cenas extremamente criativas. Do ponto de vista do ator, são muitos conflitos e experimentações. Existe o Pancrácio e as atuações por trás dele. É ele quem interpreta esses tipos e não eu. Todos têm de ter unidade e serem funcionais. É um quebra-cabeça extremamente instigante.
Você passou 14 anos interpretando o Lineu de "A Grande Família". Voltar às novelas com um personagem múltiplo é uma forma de "exorcizar" essa monotonia?
Fiz o Lineu por tanto tempo que, de certa maneira, ele faz meio que parte de mim. Acho que o Pancrácio é uma forma de exercitar minha pluralidade e surgiu em uma época ótima, onde eu já estava cansado de ficar em casa. Procurei o Silvio de Abreu (diretor de dramaturgia da Globo) para saber o que estava acontecendo na emissora.
Em vez de ser escalado, foi você quem se escalou para fazer o Pancrácio, então?
O Silvio me mostrou o que estava sendo desenvolvido e os projetos futuros. E eu gostei muito da proposta leve e divertida que o Walcyr montou em "Êta Mundo Bom!". A primeira coisa que perguntei ao Silvio era se o autor e o diretor me queriam nessa novela. A pior coisa do mundo é ser um intruso (risos).
Mesmo com o prestígio conquistado ao longo da carreira, você ainda fica inseguro se vão querê-lo ou não para um projeto?
Com certeza. Acho que perder essa humildade seria o fim para mim. Sem ela, tudo já começa errado. Tenho preguiça de atores que se acham os "bambambãs". Mas, para me acalmar, logo que falei com o Silvio, o Walcyr me ligou e disse que ficou muito feliz de eu ter me interessado pelo papel e que adoraria me ter no elenco. O Jorge Fernando também me telefonou e ficou tudo acertado. O Jorge, eu conheço dos tempos de "Brega & Chique" (1987). Me senti em casa.
Como a rotina de gravações implica no seu cotidiano atual?
Tudo o que eu tinha de projetos teatrais foi adiado para depois da trama. Quando eu era mais novo, conseguia gravar a semana toda e ainda me apresentar nos finais de semana. Agora não dá mais. Eu ia acabar fazendo tudo pela metade e me desgastar a troco de nada. Estou focado no Pancrácio e adorando ter esse tempo para ganhar intimidade com um personagem tão rico. Isso resultou em um aumento da qualidade de trabalho. Pude criar uma sintonia muito bacana com o Sérgio Guizé, que faz o Candinho, e com o Burro, que interpreta o Policarpo. Até nas interações o Pancrácio é excêntrico (risos).
Bom de jogo
Marco Nanini confessa que ficou nervoso ao saber que iria contracenar com um burro em "Êta Mundo Bom!". Na trama de Walcyr Carrasco, Pancrácio é o mentor de Candinho, de Sérgio Guizé. E o protagonista da trama não consegue viver longe de Policarpo, seu burro de estimação. "O Candinho e o Policarpo acabam indo morar com o Pancrácio. Na verdade, o burro se chama Juca. É um animal dócil e muito fácil de se lidar. Ele acabou conquistando a todos dentro e fora dos estúdios", conta o ator. Nos bastidores, o elenco tem ajuda da treinadora Taila Lemos, que auxilia na movimentação de Juca durante as cenas. "Eu acho que ele rende muito mais quando estamos gravando cenas externas. Juca não gosta de estúdio. Na rua, ele tem um desempenho muito melhor", brinca Nanini. (G.B.)
Faixa preferida
O fato de "Êta Mundo Bom!" ser exibida às 18 horas pesou na hora de Marco Nanini decidir seus rumos na tevê. O ator tem boas lembranças das tramas que fez no horário e sabe que o ritmo é diferente de outras faixas. "Sempre fui muito feliz às seis. Lembro com carinho de trabalhos como 'A Patota' e 'A Moreninha'. Eram tramas leves e sempre muito bem arquitetadas. Acho que acertei na escolha", ressalta. (G.B.)
Instantâneas
# Antes de se decidir pela atuação, Marco Nanini trabalhou nas áreas administrativas de um banco e um hotel.
# Além de ator, Nanini também trabalha atualmente como diretor, roteirista e produtor de teatro.
# Nos 14 anos em que esteve envolvido com "A Grande Família", Marco Nanini fez uma peça por ano. A necessidade de desenvolver outros personagens era motivada pela longevidade do seriado no vídeo.
# A última novela em que Nanini atuou na Globo havia sido "Andando nas Nuvens", de 1999.


