As montanhas do sol
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2003
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha 
Quando os colonizadores portugueses chegaram ao Brasil, 500 anos atrás, encontraram milhões de índios habitando as matas. Do mesmo modo, quando os colonizadores espanhóis chegaram ao Peru, nessa mesma época, encontraram milhões de incas habitando as montanhas dos Andes.
Em pouco tempo a população inca foi quase toda dizimada. Eles tinham algo que engordava os gananciosos olhos dos colonizadores: ouro. Mas muito além de ouro, tinham uma rica cultura e uma mitologia dourada pelos raios do deus sol.
Um pouco dessa mitologia, repleta de lendas e histórias, pode ser encontrada em ''O Mundo de Cabeça Para Baixo'', livro lançado pela Cosac & Naify, novo volume da coleção Mitos do Mundo. Nele, o antropólogo peruano Rodrigo Montoya reconta histórias do povo inca com ilustrações de Andrés Sandoval. Algumas delas ouviu das avós, outras colheu em livros.
O interessante da obra é que, ao recontar tradicionais relatos orais da língua quéchua (a língua original dos incas), mostra como a história do povo inca, após a invasão dos colonizadores espanhóis, foi incorporada nas lendas e mitos através dos séculos. Um claro sinal de como as lendas refletem os sentimentos ocultos de uma nação.
Uma das lendas, por exemplo, apresenta a disputa realizada entre duas aves, o galo espanhol e o puku puku nativo dos Andes. Antes dos colonizadores dominarem o povo inca, o puku tinha a incumbência de anunciar o início do dia, de acordar as pessoas com seu canto matutino. Quando os espanhóis, através da violência, passaram a se dizer donos dos Andes, trouxeram galos para a região. Os galos, então passaram a dominar o amanhecer.
A disputa acabou indo parar na mesa de um juiz. O rato, com ardil, assumiu a posição de defesa dos dois lados, dos galos e dos pukus. O drama foi que os galos pagaram uma grana maior ao rato, e assim, o roedor traçou artimanhas para a derrota dos pukus nativos. Em outras palavras, a história revela como o explorador europeu se apropriou da população inca de modo traiçoeiro e desleal.
As narrativas de ''O Mundo de Cabeça Para Baixo'' mostram um mundo muito diferente e ao mesmo tempo próximo. Diferente porque desenha um imaginário que colhe água no sol. Próximo porque enfrenta a realidade com encantamento. Apesar de tudo.
Serviço:
''O Mundo de Cabeça Para Baixo - Relatos místicos dos incas e seus descendentes'', de Rodrigo Montoya, ilustrações de Andrés Sandoval, Cosac & Naify Edições, tradução de Miriam Xavier de Oliveira, Coleção Mitos do Mundo, 104 páginas, R$ 35,00.


