Há um buraco negro no mercado editorial nacional em que obras cruciais se metem sem poder sair. Era onde parecia estar ‘‘O Que Eu Vi, O Que Nós Veremos’’, memórias do aviador Alberto Santos-Dumont. Lançado em 1918, o livro só foi republicado em 1986, em versão pobre em iconografia. ‘‘Não havia glamour, era uma edição extremamente nacionalista’’, diz o editor Jorge Sallum (Hedra), que resgatou o texto.
Nascido há 127 anos (em 1873), Dumont se suicidaria, aos 59, em 1932, enforcado em um hotel no Guarujá. Não é efeméride, mas sua ‘‘autobiografia’’ -na verdade, um relato de seus feitos - ganha nova edição com imagens escolhidas pelo sobrinho-bisneto, Marcos Villares Filho. Contada pelo próprio, a aventura de Dumont mostra-se fascinante. Filho de rico cafeicultor do interior paulista, é mandado pelo pai a Paris para se dedicar às pesquisas sobre um motor capaz de manter uma máquina em pleno ar.
O aviador, sobre cuja sexualidade paira uma nuvem de mistério, não entra em temas pessoais. Parecia não ter tempo para se dedicar a distrações terrenas, ocupado que estava com incursões aéreas.
Em suas primeiras experiências com dirigíveis, ora acerta, ora fracassa. Coloca a vida em risco e sempre sai quase ileso. Em uma queda, ao tentar contornar a Torre Eiffel, em 1901, seu dirigível cai entre as árvores dos jardins do barão de Rotschild. Noutra, pouco depois, o balão estoura ao se chocar contra a parede de um prédio, e o aviador é resgatado pelos bombeiros. Mas, em outubro do mesmo ano, aos 28, consegue o feito, documentado pela comissão do Aeroclube da França.
Quatro anos mais tarde iniciaria experiências com aeroplanos, já indignado com o desdém com que era tratado pelos contemporâneos. ‘‘Eu ouvia chalaças deste gênero: ‘‘O senhor não faz nada?’ ‘‘Está sempre fechado em seu quarto, a dormir!’’’, conta, para em seguida ironizar: ‘‘Dormi três anos e no mês de julho de 1906 apresentei-me no campo de Batelle com o meu primeiro aeroplano.
Finalmente, em 23 de outubro de 1901, levanta vôo, por apenas 50 metros, com o 14-Bis, assim chamado porque o aviador, a princípio, usava o balão de número 14 como suporte do aeroplano.
Sua suposta decepção com o destino bélico da ‘‘invenção’’, fato que o teria levado a matar-se, se mostra controvertida. Se no princípio do livro afirma sua ‘‘íntima ambição’’ de que os aviões fossem usados para ‘‘fins pacíficos’’, vangloria-se, na segunda parte - onde faz previsões sobre o futuro -, da invencibilidade das máquinas voadoras em tempos de guerra. ‘‘Desde o início da guerra, os aperfeiçoamentos do aeroplano têm sido maravilhosos’’, festeja.
‘‘O mais espantoso acontecimento foi o desenvolvimento dos canhões para aeroplanos. (...)Imaginai o poder deste terrível fogo lançado de um aeroplano!’’ Um trecho curioso é sua resposta para a polêmica sobre a paternidade da aviação, disputada com os irmãos Wright, dos EUA. Dumont abdica da timidez e assume que o filho é seu com argumentos irrefutáveis.
O livro ‘‘O Que Eu Vi, O Que Nós Veremos’’, de Alberto Santos-Dumont é um lançamento da editora Hedra.