As listras brancas se separaram
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sexta-feira, 04 de fevereiro de 2011
Rafael Ceribelli <br> Reportagem Local 
''O White Stripes não pertence mais ao Jack e Meg. O White Stripes pertence a você agora, e você pode fazer o que quiser com isso'', com essas palavras, publicadas ontem no site da dupla americana, o White Stripes anunciou o seu término oficial, deixando para trás uma jornada de 13 anos de guitarras distorcidas, gritos agudos e uma discografia sólida, carregando uma mistura única de rock, folk, blues e country.
A sonoridade crua do White Stripes começou a surgir no começo da década de 90, enquanto o então Jack Gillis fazia turnê com bandas 'punks de garagem' em Detroit, tocando nos bares da cidade à noite, como integrante do grupo 'The Go', e trabalhando em uma serralheria de dia. Nos intervalos de seu trabalho, Jack e seu chefe, Brian Muldon, se reuniam para escutar discos de blues e experimentar gravar novos sons. O único LP dessa experiência, intitulado ''The Upholsterers'', fundou a personalidade sonora da banda que Jack ainda iria conceber.
Em 1996, Jack Gillis se casou com a bartender Megan Martha White. Enquanto ensinava bateria para sua esposa, Jack arriscava acordes em seu novo instrumento oficial: empunhando sua guitarra, comprada por 100 dólares em uma loja de atacado, o branquelo cabeludo ecoava o espírito que guiou a composição de suas músicas durante toda sua carreira. O baterista Gilles havia morrido. Naquele momento nascia Jack e Meg White, os White Stripes.
A ascendência no cenário local, com a gravação de seus singles ''Let's Shake Hands'', ''The Big Tree Killed My Baby'' e ''Lafayette Blues'' apontavam para o surgimento de uma nova música; a melodia simples e a bateria fora de ritmo, aliada aos gritos e solos furiosamente executados por Jack, logo conquistaram um grande público, sedento pelo rock apresentado sem maquiagem. Os dois primeiros álbuns da banda, lançados em 1999, foram gravados em uma fita cassete na sala de estar do casal.
Mesmo com Jack e Meg entrando em processo de divórcio no ano 2000, a dupla continuou junta profissionalmente. Mantendo o estilo do rock de garagem, mas contando com uma gravação mais refinada, a sequência do trabalho dos Stripes foi o lançamento do disco ''White Blood Cells'', gravado em 2001, chamando a atenção principalmente da mídia inglesa. As rádios do Velho Continente patrocinaram a dupla de Detroit, transmitindo o hit ''Fell in Love With a Girl'' por toda a Europa, e alçaram o status dos Stripes a um nível mundial.
Em 2003, o álbum ''Elephant'', gravado em Londres, eclodiu de vez o sucesso mundial da dupla. Os 'alternativos' White Stripes ficaram em número um de vendas nas paradas da Inglaterra e dos Estados Unidos; o líder da banda, Jack White, foi considerado um dos melhores guitarristas do mundo, e o álbum arrebatou o Grammy de 'Música Alternativa'.
Os dois álbuns seguintes da banda, ''Get Behind Me Satan' (2005) e ''Icky Thump'' (2007) foram aclamados pelos fãs e pela crítica, mas não conseguiram alcançar o sucesso de público de outros tempos, não emplacando nenhum hit ao redor do mundo. Com shows lotando estádios, a divulgação do último álbum teve que ser interrompida depois que Meg foi diagnosticada como portadora de uma 'síndrome do pânico', desencadeada quando ela subia ao palco.
Devido a 'pausa' dos White Stripes, o guitarrista Jack resolveu embarcar em projetos alternativos: fundou com seu amigo Brendan Benson a banda ''The Raconteurs'', que lançou dois CDs, e voltou a tocar bateria com a banda ''The Dead Weather'', liderada pela vocalista indie Allison Mosshart.
No meio do ano passado, Jack White reassumiu o comando do White Stripes, afirmando que ia 'discutir com a Meg' o futuro da banda. Ontem, no dia 2 de fevereiro, o projeto vermelho, preto e branco chegou ao fim, com uma mensagem assinada pelos integrantes, no site oficial da banda: ''A arte da música é eterna, e pode continuar para sempre, se as pessoas quiserem.''
A banda underground de Detroit, depois de alcançar prestígio mundial e fazer a indústria mainstream redescobrir o poder das guitarras distorcidas, deixa para a posteridade mais do que sua música; o verdadeiro legado dos Stripes é o sentimento consolador de que o verdadeiro rock não morreu. Ele está escondido em algumas garagens - ecoando o som sujo de guitarras de supermercado.


