Gabriel García Márquez nos informa, na apresentação, que escrever ‘‘Notícia de um Sequestro’’ (Editora Record, tradução de Eric Nepomuceno) foi a tarefa ‘‘mais difícil e triste’’ da sua vida. Seu plano era fazer o livro em um ano. Precisou de três. E confessa que esteve ‘‘a ponto de naufragar’’ sob a complexa trama desse ‘‘drama bestial’’, como ele diz, que transformou sua pátria, a Colômbia, num país dilacerado pelo terror e pelo pânico.
Patrono bem-amado do realismo mágico, García Márquez foi obrigado a confinar-se, nessa empreitada mais recente, aos limites de uma dura realidade. Deu um mergulho no mal. Os horrores que relata não podem fazer bem, de fato, a um escritor afeito, como ele, à melhor tradição lírica da literatura de língua espanhola. De todo modo, embora se apóie no fato nu e cru, ‘‘Notícia de um Sequestro’’ é mais fantástico que tudo o que García Márquez escreveu até hoje.
O tema dessa reportagem modelar - que o autor qualifica como uma ‘‘tarefa outonal’’, embora não deixe de revelar, nela, a bravura de um jovem repórter - não é estranho a nós, brasileiros. Muito pelo contrário. Não há pessoa civilizada, no nosso país, que não tenha se afligido, lendo os jornais ou vendo o noticiário da TV, com a tragédia solitária de alguma vítima desse crime especialmente abjeto entre todos os outros. Desideologizados desde o início dos anos 70, os sequestros, aqui, viraram delitos de extorsão pura e simples. Na Colômbia, no entanto, assumiram uma grandeza diabólica. São arma política de eficácia mais do que comprovada.
Não são necessariamente os mais ricos os alvos preferenciais dos chefões do narcotráfico. Dinheiro eles já têm, e muito. A preferência dos traficantes recai, no período em que se passam os fatos narrados por García Márquez, sobre pessoas conhecidas da sociedade - políticos, ex-presidentes, jornalistas, familiares de gente importante - com cacife suficiente para garantir o sucesso das suas chantagens.
Tiro ao alvo Ameaçando matar os sequestrados em seu poder - e às vezes matavam, de fato - os traficantes procuravam confundir a opinião pública e forçar o governo a atuar da forma que lhes favorecesse. Em outras palavras, queriam governar a Colômbia com seus comunicados sinistros. E quase conseguiram.
García Márquez flagra um momento especialmente brutal na guerra sangrenta entre o poder público e o narcotráfico na Colômbia. Os números realmente impressionam. Nos dois primeiros meses de 1991, informa ele, foram cometidos nada menos que 1,2 mil assassinatos - 20 por dia - e um massacre a cada quatro dias.
Segundo as contas da polícia (que em poucos meses perdeu 457 de seus agentes, todos assassinados) 2 mil habitantes de Medellín estavam a serviço do tráfico. Havia entre eles adolescentes cuja ocupação era praticar tiro ao alvo contra policiais. Por cada oficial morto recebiam 5 milhões de pesos, prêmio que baixava de valor conforme a patente e os danos causados à vítima.
Os traficantes colombianos se sensibilizavam, nessa época, com a ameaça feita pelo presidente César Gaviria de extraditá-los para os Estados Unidos. Preferiam, por razões fáceis de entender, permanecer na Colômbia. Apesar das diferenças e da rivalidade permanente entre eles próprios na luta pela conquista de maiores espaços no mercado internacional do pó, os chefões se uniram em função do interesse comum e fundaram um comando único, chamado Os Extraditáveis, com o objetivo de obrigar o governo a cumprir suas exigências. ‘‘Preferimos um túmulo na Colômbia a uma cela nos Estados Unidos’’, era o lema de Pablo Escobar.
Tiros na cabeça Com admirável precisão, García Márquez relata o calvário de dez pessoas sequestradas nesse período, quase ao mesmo tempo. Uma delas, Maruja Pachón, passou seis meses em poder dos traficantes. Obrigada a comunicar-se por sussurros durante o tempo em que foi mantida presa num sórdido cubículo, sem direito nem a se mexer muito, a família mal conseguia ouvi-la quando recuperou a liberdade.
A jornalista Diana Turbay, filha do ex-presidente Turbay, capturada junto com a equipe de reportagem que comandava, morreu durante uma troca de tiros quando a polícia estava prestes a estourar seu cativeiro. Foi um episódio que consternou a opinião pública e trouxe os maiores problemas de consciência para o presidente Gaviria. Mas nada parece tão chocante quanto o assassinato de Marina Montoya, uma pacata senhora, dona de um restaurante em Bogotá, cujo único pecado era ser irmã de Germán Montoya, secretário-geral da presidência da República no governo Virgilio Barco. Condenada à morte pelos Extraditáveis, Marina Montoya foi conduzida com os olhos vendados a um terreno baldio e executada com vários tiros na cabeça. Depois de autopsiado, seu cadáver foi parar numa vala comum de indigentes e só descoberto tempos depois.
Bem e mal Um personagem dos mais interessantes retratados por Márquez no seu livro é o padre García Herreros, um Padim Ciço da era dos mass media, que apesar da sua idade avançada assume, como se atendesse a um chamado divino, a perigosa missão de intermediar as negociações entre Pablo Escobar e o governo.
Foi realmente o bravo padre Herreros - santo para uns, maluco para outros - quem acaba obtendo a rendição incondicional do traficante, pois diante dele os capangas de Escobar largavam as armas e se ajoelhavam, humildemente, para receber a bênção. A materialização desse encontro entre o bem e mal, em acepção absoluta, foi o melhor presente que a realidade parece ter dado de mão-beijada não ao repórter, mas ao ficcionista.
Se o escritor se mostra, em alguns momentos, complacente demais com o establishment (a imagem que faz do presidente Gaviria, por exemplo, é das mais simpáticas) é porque resolveu, apesar de tudo, situar-se no front do poder formal nessa guerra hedionda que descreve. O essencial, afinal, é dizer não, com todos as letras, ao terror e à violência. E seu livro é a sua arma. ‘‘Notícia de um Sequestro’’ é o mais contundente libelo que já se escreveu contra o poder letal do narcotráfico.

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