A mitologia é assunto inesgotável para a literatura. Dia sim, dia não, determinado autor mergulha nas águas dos mitos e volta com um peixe nas mãos. Assim como a variedade de mitos é ampla, a variedade de peixes também é vasta.
O russo Victor Pelevin é um escritor que, após o mergulho, saiu das águas com um peixe inusitado nas mãos: o romance ''O Elmo do Horror''. Na obra, lançada pela editora Companhia das Letras, Pelevin coloca o mito grego do Minotauro numa sala de bate-papo da internet. Desloca a simbologia que envolve Teseu, Ariadne e o Minotouro para um contexto distante de qualquer convenção.
O autor parte do princípio de que a mente faz do passado uma sucessão de equívocos: ''Se a mente for como um computador, quiçá os mitos sejam os seus programas 'shell': conjuntos de regras que seguimos em nosso processamento do mundo, matrizes mentais que projetamos em acontecimentos complexos para dotá-los de significado. Quem trabalha com programação de computadores diz que para se escrever em código é preciso ser jovem. Tudo indica que a mesma coisa vale para o código cultural. Nossos programas foram escritos quando a raça humana era jovem - num estágio tão remoto e obscuro que não entendemos mais a linguagem da programação. Ou, pior ainda, entendemos de tantos modos diferentes e em tantos níveis, que a pergunta 'o que significa?' simplesmente perde o sentido.''
Em outras palavras, distante de sua origem, o mito segue uma trajetória de livre reformulação simbólica. Tudo acentuado pelo fato de que, segundo Pelevin, tecnologias externas influenciam o que vemos e tecnologias internas influenciam o que pensamos.
''O Elmo do Horror'' narra a história de um grupo de pessoas presas dentro de um sala de bate-papo da internet. Pessoas que também estão presas em seus respectivos quartos. Isolados num labirinto virtual, procuram entender os acontecimentos e a possibilidade de uma saída. Dentro desse labirinto informacional, as figuras de Teseu e do Minotauro assumem a imagem de um jogo entre pensamento e realidade.
Além das conversas via computador, o grupo troca experiências vivenciadas em sonhos, onde o labirinto torna-se real. O onírico assume a forma de realidade e a realidade, um padrão de pensamento. Com humor e ironia, os diálogos trafegam entre a lucidez e a loucura.
Em ''O Elmo do Horror'' todos possuem um beco sem saída: o pensamento. E a forma que esse beco se desenvolve nem sempre está sob o comando do pensador, mas daquele que está sendo pensado. São paradoxos que Pelevin coloca com objetivo de dar um nó na mente do leitor. Justamente para revelar que o sentido do labirinto está na capacidade da mente humana em criar novas e variadas situações.
As personagens do romance nunca sabem se estão manipulando ou sendo manipuladas. Não sabem ao certo se estão definindo os acontecimentos ou sendo definidos por eles. Nunca têm certeza se a confiança deve ser depositada em Teseu, aquele que pode libertá-los, ou o Minotauro, aquele que pode devorá-los. Um tipo de relação que se prolonga entre os companheiros de internet, onde a desconfiança possui o mesmo peso que a confiança.
O ''elmo'' em questão é um capacete utilizado por aqueles que adentram no labirinto com objetivo de revelar a realidade através da distorção da própria realidade. Pode parecer confuso, mas trata-se apenas de um método de inverter o raciocínio para que ele se torne passível de dúvida. E quanto maior a quantidade de dúvida, maior será o jogo em direção ao entendimento. Nesse processo, o discurso do entendimento transforma idéia em realidade, pérolas em porcos, lantejoulas em diamantes.
Budista de carteirinha e consumidor de charutos obscenos, Victor Pelevin nasceu em Moscou em 1962. Formado em engenharia eletromecânica, pertence ao grupo de autores mais populares da recente literatura russa. Além de ''O Elmo do Horror'' possui apenas outro romance publicado no Brasil, ''A Vida dos Insetos'' (Editora Rocco, 2000). O livro é uma sátira da sociedade russa ''após-perestroika'' onde insetos adquirem faculdades humanas. Escaravelhos, baratas, mosquitos, formigas e mariposas realizam atividades típicas dos homens. Tudo começa quando um pernilongo norte-americano pousa na Rússia para provar o sangue russo e acaba se apaixonando por uma jovem prostituta.
''O Elmo do Horror'' pode ser encarado como um romance cheio de armadilhas onde o discurso ocupa lugar de destaque. Entre a ironia e perspicácia, o autor revela como determinados sentidos podem ser forjados através das ferramentas da linguagem. Sempre lembrando que novas tecnologias são novas linguagens. E novas tecnologias influenciam tanto o olhar como o pensar.



Ugli 666:   Quebra-nozes, não entendi uma coisa na sua história. Como se pode mudar algo imperceptivelmente sob os olhos de alguém? Será possível que olhe para um lugar, veja outra coisa e não perceba nada?

Nutscraker: No início, também não entendi. Mas esse ‘‘mudar’’ não tem nenhum significado para o elmo. Na vida, o que você vê depende de onde você olha. E quando está com o elmo, é tudo ao contrário: onde você olha depende do que você vê. Está claro?

Ugli 666: Não completemente.

Nutscracker:   Na vida, você verá aquilo que está diante dos seus olhos, não importa para onde girou a bunda. Mas aqui você verá o que está diante dos seus olhos, não importa para onde girou a cabeça. São grandes diferenças, apesar de soarem parecidas. Você não tem nenhum sistema de coordenadas independente, e nós definimos tudo o que você vê. Não dá nem para suspeitar. E a vida para você já não é o que é de fato, e sim o que lhe mostram. Você crê que olha ao redor naturalmente, mas na verdade o tempo todo seu olhar tropeça em nosso candidato, ou melhor, perdão, em nosso vaso, e o faz de espírito leve e feliz. Mas não surge a questão de por que isso é assim, do mesmo jeito que não se pergunta por que hoje o dia está ensolarado.

Organizm:   Belo lapso verbal.

(Fragmento de ‘‘O Elmo do Horror – O Mito de Teseu e o Minotauro’’, de Victor Pelevin)






Serviço::

- ''O Elmo do Horror - O Mito de Teseu e o Minotauro'', de Victor Pelevin. Editora Companhia das Letras, tradução de Bruno Gomide, 222 páginas, R$ 41,00.

mockup