As lágrimas sinceras de Halle Berry
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de abril de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha 2 
De acordo com a burocrática justificativa oficial que acompanha a classificação R (Restricted), obtida pelo filme para exibição nos cinemas dos Estados Unidos, A Última Ceia contém racismo, cenas de sexo, nudez, obscenidade, uma eletrocussão e violência. Nenhum exagero, de fato está tudo lá. Faltou acrescentar, no entanto, que isto é apenas parte do todo. Sob uma profusão destes e de outros temas e subtemas opressivos (a aflição, o legado maldito, a pena de morte, o peso do passado) se articula uma bela e frágil história de seres humanos com tudo o que há de mais banal neles, e com tudo o que há de mais extraordinário para o cinema: a vida.
Em A Ultima Ceia , a família Grotowski vive no chamado Deep South, ou o sul profundo dos Estados Unidos, uma geografia intolerante que sempre privilegiou as manifestações racistas. Hank Grotowski (Billy Bob Thornton) é guarda na penitenciária da Georgia. Ele tem que se assegurar que condenados à morte como o Lawrence Musgrove (Sean Combs) caminhem para a cadeira elétrica serenamente, sem histeria. Um está há 11 anos na fila da morte, e em vias de alcançar o descanso eterno. O outro não tem tanta sorte, e deverá viver por longo tempo ainda após a execução: Hank é uma espécie de prisioneiro do ódio, ligado a um ciclo familiar de virulenta animosidade. O pai dele é o patriarca Buck (Peter Boyle) e o filho de Hank é Sonny, o caçula entre os carrascos. Todo o clã trabalha nas funções carcerárias e vive numa pequena casa. Para eles, a existência é apenas em função do integral e obsessivo comprometimento com a ordem e com a inutilidade dos afro-americanos. Mas Hank tem dois fatos para lidar a partir de agora: a humilhante demonstração de fraqueza do filho Sonny (Heath Ledger), que sucumbe à emoção e tem uma crise nervosa durante a eletrocussão de Musgrove; e, no vácuo deste drama doméstico, a atração que começa a sentir pela negra Letícia (Halle Berry). Sem que nenhum dos dois saibam as respectivas identidades e a macabra conexão: ele, o homem do corredor da morte; ela, a viúva do eletrocutado Musgrove.
Parece muito para lidar em rigorosa chave dramática sem cair nas armadilhas do melodrama dispersivo, mas o diretor suíço Marc Foster e talvez mesmo por causa da sensibilidade européia sai da empreitada com brio e classe, contando sua história de maneira simples e direta, sem os pegajosos penduricalhos que poderiam lubrificar os olhos da platéia. Afinal, estamos em território emocional desolado. E uma relação de tal modo potencialmente rica e complexa, a de Hank e Letícia, merece e obtém um tratamento à altura no trabalho reflexivo da dupla de roteiristas estreantes, Will Rokos e Milo Addica. Seja na economia de gestos e nos silêncios, seja na longa, bela cena de amor. Ou na criteriosa ausência de concessões hollywoodianas. O final, sutilmente em aberto, é outro achado a degustar.
O título original, Monsters Ball, bem melhor que a tradução original, é rico em significados. Refere-se à despedida dada aos prisioneiros na véspera da execução, o baile dos monstros, na ótica dos executores. Mas os monstros aqui são outros, invisíveis, habitando e assombrando as mentes e as lembranças dos Grotowski e de outras gerações de homens brancos. Monstros como racismo, medo, ódio, desconfiança nas mulheres, incapacidade de demonstrar ternura e afeto.
A Última Ceia se beneficia de um elenco tão afinado e homogêneo que seria injusto destacar nomes, embora as circunstâncias autorizem o contrário. Desglamourizada, Halle Berry é a máscara da dor e da necessidade de amor como elemento de sobrevivência. Isto, como se viu, é capaz de atrair um Oscar. E provocar um rio de agradecimentos. E Billy Bob Thornton, com olhos que ora são puro ódio, ora pura dor, é o especialista em personagens que pensam que sabem tudo, e então descobrem que não sabem nada. E que é preciso aprender através do sofrimento.


