As invisíveis marcas do autoritarismo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 08 de agosto de 2017
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 

A escritora carioca Andréa Zamarano está em Londrina para lançar o romance "A Casa das Rosas". A noite de autógrafos acontece no Bar Valentino no próximo domingo (13), 20 horas.
A obra narra a história de Eulália, uma jovem que reside no histórico casarão (conhecido como Casa das Rosas) situada na Avenida Paulista de São Paulo. Morando com pai, um rico empresário e político, vive em busca de alguma informação sobre a mãe desaparecida logo após seu nascimento.
A história é ambientada no início da década de 1980, em pleno processo de luta pela redemocratização do país que estava tentando se livrar da ditadura militar. Eulália cresce marcada por vários planos do autoritarismo. Autoritarismo social e familiar, coletivo e individual, político e moral. E acima de tudo, o autoritarismo masculino sobre sua condição feminina.
Nascida no Rio de Janeiro e residindo em Portugal há mais de 25 anos, Andréa Zamorano desenvolve uma literatura que ela chama de híbrida: "Uma mistura entre as duas variantes da língua portuguesa que resulta da maneira como se organiza o meu pensamento e a minha fala". Publicado originalmente em 2015 em Portugal, a obra foi eleita o livro do ano pelo "Time Out Lisboa". A edição brasileira está sendo lançada pela editora Tinta Negra. A seguir, a escritora fala sobre "A Casa das Rosas".
"A Casa das Rosas" aborda vários planos do autoritarismo. O plano coletivo, o individual, o social, o político e o familiar. Qual sua intenção em embaralhar os esses planos?
Talvez fosse demonstrar que o autoritarismo pode acontecer em várias dimensões. Todas elas aprisionantes e violentas para quem é subordinado ao exercício do poder do outro sobre a sua própria vontade. Qualquer forma de autoritarismo é má porque retira a voz de quem é subjugado e deve ser veemente combatido, seja por um indivíduo ou por uma nação.
Você considera que o autoritarismo deixa marcas invisíveis?
Devido às suas particularidades, o autoritarismo reveste-se de atitudes despóticas que marcam - nem sempre de forma óbvia - quem é vítima de repressão. Os traumas causados pela exposição a essa vivência podem se perpetuar por mais de uma geração, sendo necessário insistir no respeito e na preservação das liberdades individuais em todas as suas instâncias.
Trata-se de um romance sobre a busca pela liberdade?
Acredito também que seja um romance sobre os abusos no universo doméstico, sobre os traumas que são aí originados, sobre o desamparo e sobre a força do feminino.
A personagem principal troca de identidade em vários momentos do romance. Passa de Eulália para Ana e de Ana para Maria. É a busca pela identidade que está em jogo?
A identidade é um processo em constante construção, cumulativo, não se extinguindo nunca. Eulália ora é Ana, ora é Maria e ora é Maria e Eulália ao mesmo tempo. Estando à procura da sua mãe e de descobrir quem é, assim como o Brasil daquela época, da década de 1980, onde se situa a ação da narrativa. Ou mesmo o Brasil de hoje que também precisa se libertar do jugo dessa gente corrupta que envenena a esperança de milhões.
A narrativa de "A Casa das Rosas" possui bases históricas e personagens realistas, mas em alguns momentos surgem elementos fantásticos, como um sagui que fala. É um flerte com o realismo fantástico?
Vou responder com uma pergunta: Será que o macaquinho fala mesmo? Gosto de estar no limite da percepção entre o que é o normal e o da improbabilidade. Se é realismo fantástico, fico muito feliz porque sempre adorei a literatura da América Latina.
Você tem a experiência de viver entre dois países que possuem a mesma língua, mas que igualmente possuem diferenças linguísticas. Como é fazer literatura com um pé em cada território?
Já vivi mais tempo em Portugal do que no Brasil. Estou tão integrada na cultura e no falar português que não sei dizer onde começa o Brasil ou termina Portugal em mim. Tudo se fundiu, acabo tendo uma escrita híbrida, uma mistura entre as duas variantes da língua que resulta da maneira como se organiza o meu pensamento e a minha fala. Confesso que no início estava apreensiva, mas para minha surpresa, fui muito bem recebida dos dois lados do Atlântico.

Serviço:
"A Casa das Rosas"
Autora Andréa Zamorano
Editora Tinta Negra
Páginas 176
Quanto R$ 42
Lançamento:Bar Valentino
Quando; domingo (13)
Horário: 20h


