Folha : Como foi a concepção desse disco? Você chegaram a pensar ‘‘bem, vamos radicalizar, vamos fazer um disco mais porrada’’, ou ele foi saindo espontaneamente?
Canisso : Ele é resultado da experiência de três anos na estrada. A gente sabe que o público quer porrada mesmo. Ele é uma demonstração de respeito pelo nosso público. Mas a pegada está presente também nos discos anteriores. Existe um elo de ligação entre os três álbuns. Você ouve três acordes e já reconhece os Raimundos.
Folha : Por que vocês decidiram gravar o disco em Los Angeles?
Canisso : Fomos marcar as gravações com um mês de antecedência. Mas aí já não havia estúdios disponíveis no Brasil que, você deve saber, conta com uns 15 estúdios bons no máximo. Nesse período, a gravadora fez um levantamento dos estúdios americanos e notou que os preços estavam mais em conta. Só em Los Angeles, onde o disco foi gravado, descobrimos mais de mil estúdios catalogados cobrando menos por horas de gravação do que os estúdios daqui.
Folha : Fale sobre a gravação da faixa ‘Bass Hell’, que fecha o álbum. É real o papo de que vocês não tiveram tempo para botar a letra em cima do instrumental?
Canisso : Sabe aquela coisa: você está fazendo uma prova na escola, fica um tempão em cima de uma questão, e quando vai ver não tem mais tempo para responder o resto? Foi o que rolou.
Folha : Vocês estão enterrando o ‘‘forró-core’’?
Canisso : Esse rótulo tinha a ver no começo da banda. A gente o usava como uma forma de sintetizar as nossas influências de thrash metal, hardcore e elementos de forró. Mas se ele serviu naquele momento, depois acabou desvirtuado pela mídia que passou a achar que era um novo ritmo.
Folha : E muitas bandas foram atrás achando que era uma fórmula.
Canisso : Elas pensavam: os Raimundos se deram bem, vamos fazer umas misturas também. Durante um tempo, essa idéia ficou meio obrigatória, virou moda, o que acabou banalizando tudo e perdendo o espírito de novidade.
Folha : E aí vocês decidiram abandonar a mistura?
Canisso : A gente não queria ficar prisioneiro de uma fórmula. Mas se você ouvir atentamente o disco, vai sentir que o elemento nativo está presente. A faixa ‘Baile Funky’, por exemplo, tem uma pegada de baião. Acontece que essas influências foram englobadas, mescladas numa massa homogênea.
Folha : Você destaca alguma banda legal dessa safra surgida depois dos Raimundos?
Canisso : Eu noto legitimidade na mistura feita pelo Catapulta, que é uma banda formada por caras do Nordeste mesmo e que fazem um som pesado e elaborado. O Boi Mamão também é legal, porque mistura nada com nada. Acho que daqui pra frente as bandas que se destacarem vão ser aquelas que apresentarem uma alternativa a essa tendência de fusão de ritmos. (Nelson Sato)

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