As incríveis férias chegaram
''Não importa quantas vezes você salva o mundo, ele sempre estará novamente em perigo'', refletia o Sr. Incrível em outros tempos. E em seguida raciocinava: ''Às vezes me sentia como uma doméstica, nem bem acabava de limpar este local e já vinham sujá-lo de novo; não podiam mantê-lo limpo por dez minutos ?'' Na verdade, o Sr. Incrível não estava se queixando de seu trabalho. Sim, porque ser um herói e salvar o mundo era aquilo que ele mais gostava de fazer: era capaz de arrancar uma árvore tanto para salvar um gatinho como para impedir a fuga de bandidos.
Mas se esse relato tem os verbos no passado é porque tudo acontecia antes. Antes de que? Antes de que aqueles que foram salvos começassem a se queixar de seus salvadores. Então um mundo cheio de perigos e de super-heróis capazes de enfrentá-los foi substituído por um mundo em que o super-heróis continuam super, mas já não são heróis. Não são nada. É disso que trata o novo e fascinante trabalho dos autores de ''Toy Story'' e ''Procurando Nemo''. Da dificuldade que é deixar de ser super-herói. O filme, ''Os Incríveis'', é o lançamento pré-Natal que entra hoje em boa parte do território nacional (confira a programação de cinema na página 2).
Em sua fulgurante trajetória-arrastão em busca da hegemonia como ''major'' cinematográfica de animação, o pessoal da Pixar - era uma vez um pequeno estúdio de São Francisco cujos filmes era distribuídos pela Disney... - decidiu com ''Os Incríveis'' colocar todo seu artesanato e sua tecnologia a serviço de um diretor que vinha de outro mundo. Mais precisamente do universo da animação tradicional. Companheiro de geração de John Lasseter, o manda-chuva da Pixar e diretor dos dois ''Toy Story'', Brad Bird é cineasta que fez de tudo no mundo da animação. Aprendeu os rudimentos com a Disney, criou a série ''Family Dog'' sob as bênçãos de Spielberg, foi assessor dos Simpsons e até chegou a dirigir uma pequena jóia chamada ''O Gigante de Ferro'' (quem sabe nas locadoras?). Agora, influenciado tanto pelas histórias mais clássicas de super-heróis quanto por toda espécie de aventura com agentes secretos mais sofisticados, ''Os Incríveis'' é um deliciosa iguaria narrativa e visual que é evidentemente o prazer de seu criador.
A imaginação de Bird produziu aquele que talvez seja o primeiro grande filme de ação (e de super-heróis) para pré-adolescentes. Um filme que discorre sobre a natureza dos super-poderes, sobre o impossível que é deixar de ser aquilo que se é. A aventura dos Incríveis é praticamente a de um James Bond, mas com super-poderes. E família. Atenção: não se trata de filme de animação para crianças muito pequenas. Há discussões familiares em tom de voz mais elevado, tiros e explosões e até mortes. Como na própria vida. A trama é a de um ex-super-herói , casado com uma ex-super-heroína, que será tentado a voltar à ação. E o fará clandestinamente. Mas terminará arrastando com ele toda a família. E milhões de espectadores. É diversão garantida.(C.E.L.J.)





