A 22ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo foi aberta para convidados na quarta-feira, com a exibição do brasileiro ‘‘A Hora Mágica’’, de Guilherme de Almeida Prado. Mas a mobilização para valer em torno da programação internacional começou ontem, com a concorrida exibição de ‘‘A Maç㒒, da debutante Samira Makhmalbaf. Ainda muito jovem (18 anos), a inteligente, talentosa e bela iraniana, filha de cineasta consagrado, com certeza vai cativar o público no decorrer da Mostra - o filme terá ainda outras projeções - da mesma forma como há cinco meses em Cannes, quando ‘‘A Maç㒒 foi muito aplaudido na seção paralela ‘‘Un Certain Regard’’ e sua diretora tornou-se uma espécie de musa da Croisette.
Abbot Genser/Divulgação‘‘Illuminata’’: declaração de amor ao teatro levada a extremos por John TurturroDe olho na extensa seleção divulgada pela organização, é desde logo evidente o nível superior do banquete ao alcance imediato do público não somente da capital paulista, mas também em trânsito. E a qualidade não surge apenas prometida no papel. A grande maioria dos títulos à disposição já passou pelo crivo rigoroso de comissões e júris de outros eventos cinematográficos internacionais, e chega à Mostra de São Paulo com o aval da crítica de boa parte do mundo.
Até o dia 30, nas telas de endereços estratégicos como o Grande Auditório do MASP, Espaço Unibanco 1, Cinearte 1, Cine Vitrine, Sala Cinemateca e Maksoud Plaza, 164 filmes, da insuspeitada e distante Mongólia até a vizinha Argentina, vão fazer a alegria e a cabeça de cinéfilos, que inclusive vão poder votar, eleger e premiar os seus preferidos. Neste universo de diversidade de temas, línguas, estilos, estéticas, o que se garante desde já neste caleidoscópio de imagens é a ausência de objetos cinematográficos previsíveis, à base de fórmulas testadas, comercialmente aprovadas, sequenciais. A primazia se dá ao novo, ao singular, ao insubmisso, à experimentação e, não raro, ao exótico e à insubordinação, entendendo-se aí provocação e até mesmo afronta a duvidosos cânones cristalizados.
Peter Montain/Divulgação‘‘Velvet Goldmine’’: entre os ingleses, o único candidatíssimo a cult da MostraÀ frente da organização da Mostra desde seu início, em 1977, o jornalista, crítico e animador cultural Leon Cakoff é o responsável direto pelo evento. Espécie de garimpeiro de imagens pelos festivais mundo afora, nestas duas décadas ele adquiriu know-how nada invejável quebrando pedra de porta em porta atrás de patrocínio - até há duas semanas ainda faltava dinheiro para arredondar o orçamento e enfrentar o custo, que não é baixo. Mas vitimado por incurável persistência, agravada por crônica teimosia, Cakoff vem acumulando sucessos com as duas dezenas da Mostra, de resto já dona de respeitabilidade no circuito internacional de congêneres.
Não é qualquer festival que consegue reunir em retrospectiva 13 filmes de um dos grandes mestres do cinema em todos os tempos, o japonês Kenji Mizoguchi, veneranda e assumida influência de boa parte da comunidade de cineastas contemporâneos. Além desta homenagem especial a um dos expoentes da genialidade nipônica - Ozu e Kurosawa completam a irretocável trindade de humanistas - a Mostra também está rendendo tributo ao iugoslavo Dusan Makavejev, iconoclasta de carterinha dos anos 70 e 80, e ao iraniano Dariush Mehrjui, respectivamente com dez e oito longas.
São muitos os apelos tentadores, e a disponibilidade fatalmente não vai chegar para tanto. Mas determinadas manifestações de determinados países não devem e nem podem escapar, em que pese a animadora - mas não garantida - perspectiva de futura distribuição comercial. É um bom momento também para reavaliar o agora do cinema brasileiro. Uma dúzia de produções recentes é um pretexto forte o suficiente para saber onde anda a retomada do nosso cinema.
Divulgação‘‘Aprile’’: o filme italiano é uma bem-humorada e terna suíte de ‘‘Caro Diário’’‘‘Carne Trêmula’’, o melhor Almodóvar em muitos anos - diabolicamente conciso em suas habituais fixações - deve cair em cheio também nas boas graças do público. Polêmicos por onde passam, os dinamarqueses Lars von Trier e Thomas Vinterbergen vão mostrar ‘‘Os Idiotas’’ e ‘‘Festa em Família’’, duas desconcertantes peças do extravagante movimento denominado ‘‘Dogma’’. Através de um manifesto redigido em 95 em Copenhague, a dupla e outros colegas deixam claro seu repúdio a procedimentos cinematográficos tradicionais. Os dois filmes trazidos à Mostra são produtos pioneiros do ‘‘Dogma’’, usando e abusando de som direto, filmagem somente em locações, nenhum emprego de música, a não ser a que se ouve no local (e se houver), nenhuma iluminação artificial, valendo apenas luz natural. Os temas? ‘‘Os Idiotas’’ mostra um grupo de pessoas que simula a idiotia como forma de lidar com suas neuroses e inseguranças. Em ‘‘Festa em Família’’, durante jantar comemorativo, um dos filhos pede a palavra e relata a todos os convidados os abusos sexuais que ele e os irmãos sofreram do pai quando pequenos. É o inferno em black-tie.
Grande vencedor de Veneza-98, o italiano ‘‘Cosi Ridevano’’ tem tudo para colher aplausos e elogios. Afinal, esta história de irmãos migrantes do sul miserável para o norte promissor em fins da década de 50, com ressonâncias viscontianas ‘‘Rocco e Seus Irmãos’’, reafirma o talento do diretor Gianni Amelio, já testado em ‘‘Lamerica’’. Outro que vem da Itália é ‘‘Aprile’’, bem-humorada e terna suíte de ‘‘Caro Diário’’. Nesta segunda incursão ao inferno-paraíso confessional, Nanni Moretti desfila conveniências e incômodos de ser pai e comunista, não necessariamente nesta ordem, mas sempre com uma boa dose de ironia e ternura.
Dos Estados Unidos, a maior representação. Entre os 19 filmes, a maioria indies, os destaques são ‘‘Felicidade’’, de Todd Solondz, ‘‘Dark City’’, de Alex Proyas, um filme noir em clima entre Kafka e Blade Runner, com belíssimas imagens, ‘‘Claire Dolan’’, de Lodge Kerrigan, retrato sem retoques de uma call girl, o novo e nem tão bom de Hal Hartley, ‘‘Henry Fool’’, e a declaração de amor ao teatro levada a extremos por John Turturro em ‘‘Illuminata’’. Entre os ingleses, o único candidatíssimo a cult da Mostra: ‘‘Velvet Goldmine’’, de Todd Haynes, resgata com despudor e reverência a época de ouro do glam rock. O veterano John Boorman mostra ‘‘O General’’, sobre legendário ladrão irlandês que acaba se envolvendo com o IRA. O filme deu o prêmio de direção a Boorman em Cannes-98.
Cinco bons exemplares dão o tom da força do atual cinema português. Entre eles, o decano Manoel de Oliveira assina o filosófico ‘‘Inquietude’’, admirável reflexão sobre o desejo latente dos mortais pela imortalidade. E o inquietante ‘‘O Rio do Ouro’’, de Paulo Rocha, exibido em Gramado, busca uma segunda e merecida chance de melhor acolhida.
E destaque obrigatório é o grego ‘‘A Eternidade e Um Dia’’, que deu a Theo Angelopoulos a Palma de Ouro em Cannes-98.
Para quem estiver com planos de ir a São Paulo para acompanhar a Mostra, ainda há permanentes à venda. Uma integral, para tudo e a qualquer hora, custa R$ 100,00. Uma outra, mais simples e com limitações de dias e horários, custa R$ 30,00. Em caso de disponibilidade de lugares, ainda resta a esperança do ingresso individual, na bilheteria das salas, a R$ 6,00 e R$ 3,00. Informações no Cinearte, tel. (011) 285-3996. E para quem ficar, o site da Mostra é www.mostra.orgJasin Boland/Divulgação‘‘Dark City’’: filme noir em clima entre Kafka e Blade Runner, com belíssima fotografiaCarlos Eduardo Lourenço Jorge
Especial para a Folha2

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