AS ILUSÓRIAS PORTAS DO AMOR
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de setembro de 2001
Marcos Losnak<bR> De Londrina<br> Especial para a Folha 2 
No mundo contemporâneo há estatísticas para tudo. Pode-se saber o volume de chuva de determinada região, o número de analfabetos de um país, a quantidade de casamentos, o números de divórcios, a porcentagem de pessoas que roem unhas, a população de carolas por metro quadrado e outras informações.
Estatísticas podem também oferecer dados sobre o volume de amores que deram certo - aqueles que se tornaram possíveis. Mas não conseguem apresentar a porcentagem de amores que não deram certo, os amores impossíveis. Talvez porque esses amores sejam invisíveis, ocupem o território privado dos sentimentos e devem ser sepultados com uma pá de cal.
O escritor húngaro Sándor Márai (1900 - 1989), em seus romances, coloca a impossibilidade do amor como heras crescendo sobre o muro da existência. Quando algum jardineiro resolve podá-las, uma dolorida imagem se apresenta. Um amor não correspondido pode criar complexas estruturas mentais. Implodi-las completamente pode levar anos, década e, quem sabe, uma vida inteira.
Em ''O Legado de Eszter'', romance publicado pela Editora Companhia das Letras reforça, Sándor Márai reforça essa idéia. Assim como em ''As Brasas'', o escritor coloca as conflituosas relações amorosas como pano de fundo de suas histórias para discutir temas mais complexos e ambíguos. Como se a impossibilidade do amor pleno arrastasse em seu bojo a possibilidade de compreensão de toda a vida.
''O Legado de Eszter'' apresenta o relato de Eszter, uma mulher que percorre suas lembranças para tentar entender o amor que sente por um homem, chamado Lajos, indigno de seus sentimentos. Bom de lábia, Lajos, chega de mansinho e conquista a família de Eszter. Começa a namorá-la mas acaba se casando com sua irmã. Inveterado trambiqueiro, empresta dinheiro de todos e nunca paga. Apesar de todos conhecerem suas mentiras, exerce o poder de sedução para arrancar das pessoas o que deseja - geralmente alguma coisa de valor monetário.
Após 20 anos sem vê-lo, Eszter recebe a notícia que Lajos está chegando para uma importante visita. Então todo o passado desfila em sua mente e suas esperanças de um encontro pacífico são destruídas quando entende as reais intenções da visita: dilapidar a última tranquilidade que ainda resiste.
Sándor Márai é tipo de escritor que prefere 100 páginas para narrar o que outros escritores necessitam de 400. Utilizando uma narrativa sedutora, consegue apresentar conteúdos escorregadios entre dedos de lixa. No caso de ''O Legado de Eszter'', a personagem acalenta alguma esperança por um amor que não possui esperança. A única forma de viver livre da impossibilidade do amor é aceitar ser machucada, mais e mais. Até chegar ao ponto de ficar vazia, interna e externamente. Em outras palavras, chega à conclusão que a razão não é suficiente para dominar o coração, mesmo que este seja um tapete de feridas.
Mas a maior discussão do romance são os princípios éticos, justamente no escorregadio território da paixão. Como se o amor, com sua potência incontrolável, eliminasse até mesmo os acordos éticos na busca da manutenção de suas perspectivas. E que, para conseguir ficar livre de suas forças, a possibilidade de abandonar tudo - até a si mesmo - se converta numa tranquila noite de sono. Nesse momento, a dúvida pode cobrir o sol como um eclipse: ''Enquanto duvidamos da palavras ou dos sentimentos de alguém, é possível construirmos uma vida ou relação sobre solo frágil. Você sabe que a construção desabará um dia... ainda assim, o empreendimento tem algo de verdadeiro, humano e inevitável. Mas aquele que a fatalidade castigou levando-o a escoar seu edifício em você, terá o pior dos destinos, porque um dia perceberá que construiu tudo no ar sobre nada. Outros mentem por seu caráter, porque assim ditam seus interessantes ou pelo prazer do momento. Mas você mente como cai a chuva, é capaz de mentir com lágrimas nos olhos. (...) Você me olha nos olhos, ou me toca e suas lágrimas escorrem, sinto o tremor de suas mãos, e ao mesmo tempo sei que você mente, sempre mentiu, desde o primeiro instante. Sua vida foi uma mentira. Não acredito nem em sua morte - também será mentirosa.''
Num lugar como esse, onde a mentira transpira verdade - entre o certo e o errado, o ético e o não-ético -, as emoções tornam-se um novelo de lã nas patas de um gato. E assim como os gatos e os novelos de lã, a paixão não sabe ler a grafia do destino. E mesmo que soubesse, não a levaria em consideração.
O Legado de Eszter - De Sándor Márai, Editora Companhia das Letras, tradução do húngaro de Paulo Schiller, 120 páginas, R$ 19,00.


