As ilhas flutuantes do Titicaca
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segunda-feira, 29 de dezembro de 1997
Londrina 
fotos: Elaine Noeli DestroSobre o lagoComunidade de Uros, no Titicaca: atualmente existem cerca de 40 desses agrupamentos sobre o lagoA vida emerge na imensidão das águas do Titicaca, o lago sagrado dos incas. O nome vem de sua forma: um puma (titi) e um coelho (caca). O lago é um fenômeno geográfico e cultural. A mais de 3.800 metros acima do nível do mar, é o lago navegável mais alto do mundo. Tem 165 quilômetros de comprimento, 60 quilômetros de largura, 300 metros de profundidade e suas águas cobrem uma extensão de 8.300 quilômetros quadrados entre a Bolívia e o Peru.
O Chucuito, o lago maior; e o Winaymarka, o lago menor, são unidos pelo Estreito de Tiquina formando então o grande Titicaca, de cujas águas - diz a lenda - saíram aqueles que dariam origem à civilização inca. A estória que há séculos corre de boca em boca conta que os homens viviam nas trevas e na ignorância. O Sol, aflito, mandou seu próprio filho, Manco Capac, levar luz e conhecimento aos homens. A Lua ofereceu sua filha Mama Occllo como noiva do filho do Sol. Os dois saíram das águas do Lago Titicaca, nas ilhas chamadas hoje Ilha da Lua e Ilha do Sol, próximas à cidade de Copacabana, na Bolívia. Manco e Mama andaram até o Altiplano peruano onde o filho do Sol enterrou sua lança de ouro e fundou Cuzco, a capital do futuro império. Os incas são descendentes diretos desse casamento, herdeiros do Rei Sol. E os Uros, que hoje habitam a superfície do Titicaca são, segundo a lenda, descendentes de alguma civilização de sonho da época pré-incaica.
Pequenas embarcações de tótora: a arte de fazer barcos é milenar
O imaginário folclórico explica o surgimento dos Uros a partir de um dilúvio provocado por Viracocha, o deus criador. Compadecido dos homens que suportavam tanta calamidade, Viracocha os transformou em patos selvagens que se escondiam entre as tótoras (vegetação típica da região). Mas o Sol renasceu no Titicaca e com ele houve um milagre de transformação. Muitos patos, no entanto, já acostumados a viverem ocultos entre as tótoras, decidiram não abandoná-las mais. Assim surgiram os Uros que hoje vivem em ilhas flutuantes - feitas de tótora - no Lago Sagrado.
De pai para filho A tótora é uma vegetação que cresce abundantemente no Titicaca. Os Uros comem a raiz, rica em potássio e cálcio e que eles acreditam ter poder também para curar a febre. Com a palha fabricam barcos e recobrem, todos os dias, o chão de suas ilhas substituindo as palhas que vão apodrecendo no contato com a água. A fibra também é usada para fazer paredes e tetos das choças.
Hoje existem mais de 40 dessas ilhas flutuantes em todo o lago. Cada uma não têm mais do que 500 m2 de área útil e abrigam comunidades de dez a 20 famílias que tem de quatro a sete filhos. Nas comunidades há escolas até a quinta série. Depois, aqueles que querem continuar estudando podem partir para as cidades. A grande maioria, no entanto, prefere ficar nas ilhas, cultivando suas próprias tradicões.
O artesanato é uma herança passada de pai para filho. As crianças das ilhas estudam mas preferem cultivar suas próprias tradições
Os Uros plantam batatas, caçam e domesticam aves silvestres para colher seus ovos e complementar a dieta. Vivendo nas regiões de águas baixas do Lago Sagrado, eles respeitam o meio-ambiente, separando determinada região do lago, onde nenhuma comunidade indígena pode pescar ou caçar, preservando e restabelecendo o equilíbrio natural do lago e fazendo o rodízio durante o ano.
São hábeis artesãos e o artesanato inclusive é uma herança cultural. Cada objeto contém uma tradição passada de pai para filho durante muitas gerações. Os motivos decorativos são diferentes e expressam as recordações e tendências religiosas e seu contexto social. O artesanato mais conhecido e trabalhoso é a balsa de totóra, com as quais passeiam pelo lago. A vida útil dessa embarcação é de um ano.
Outros produtos facilmente comercializados são bonecas de pano, vasilhas de barro, ponchos, toalhas, bordados, mochilas, chapéus, máscaras, mantas, bolsas, gorros, luvas e meias de lã de lhama, ovelha, alpaca e vicunha. A dança, no entanto, é a manifestação folclórica mais difundida.


