Entre o Conselho de Washington – que propunha políticas econômicas ao terceiro mundo – e a queda do muro de Berlim, o mundo viveu os anos 80 mergulhado em uma crise de valores que confrontou idéias antagônicas que pregavam o fim das utopias e o surgimento de um mercado livre de alcance global.
Muito se debateu sobre o fim da História e a aceitação de uma cultura acrítica e amorfa, solapando os ideais transformadores que a sociedade moderna propunha, baseada na razão e no determinismo. Afinal, se a tradição do modernismo era a criação da novidade, qual o papel da arte na sociedade contemporânea?
Há quem ainda pense que os anos 80 se resumiram à disseminação da AIDS, dos yuppies, da conquista dos shoppings centers como templos do consumo e ao surgimento da ‘‘geração perdida’’, sufocada entre os revolucionários anos 70 e a aceitação da banalização dos anos 90. Mas esta é uma imagem criada por aqueles que encontraram no poder a justificativa aos ‘‘duros anos de caviar no exílio’’, como disse o humorista Angeli. Interpretar tal período histórico, exige maior sensibilidade.
Os anos 80 só podem ser pensado em termos de sua multiplicidade de ações e diversidade de influências, sendo que a idéia de uma linha evolutiva pouco condiz com sua dinâmica de período crítico, mas profícuo. Só em um período como este poderia surgir artistas como Arrigo Barnabé, de Londrina, Paulo Leminski, de Curitiba, indo – por fora dos grandes centros hegemônicos – até o mangue beat no Recife. Aos centros de poder surgiram alternativas produtivas em vários lugares do país e do mundo, contaminando-se mutualmente, em várias linguagens. Como diz o compositor Vitor Ramil, gaúcho, autor da Estética do Frio: ‘‘eu não estou à margem de uma história. Estou no centro de outra’’.
E graças aos paradoxos e contradições ligados tanto ao incômodo do peso histórico, quanto à voracidade do mercado de arte, foi que nasceu o movimento artístico chamado de ‘‘Retorno à Pintura’’, capitaneado pelo curador e crítico de arte italiano, Bonito Oliva, que propunha uma volta ao velho meio artístico pelo prazer individual, pela prática artesanal contra a maquinária tecnológica e pela emoção estética, como oposição à arte mais conceitual do período precedente.
Foi um movimento internacional surgido na Europa a partir de 1979, mas com rápida repercussão no Brasil. Nele estava embutido tanto conceitos da bad painting, uma pintura feita para ser feia, quanto de outros, como o hipermaneirismo e paródias grotescas de tremas neoclássicos, salientando um certo aspecto frívolo, decorativo e desprovido de conteúdo histórico. De qualquer forma, serviu para questionar o aparecimento de ídolos, heróis, mártires e mitos em nossa sociedade. E mesmo que as posições dos críticos e pensadores possam se chocar entre si, o certo é que as obras dos artistas atuantes da época, continuam aí, gerando interpretações, revisões e escolhas da nossa parte, já que, ironia, fazem parte da história. Afinal, pregar o fim das ideologias também é ideológico.
[email protected]

mockup