'As Herdeiras' traz retratos de mulher
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quinta-feira, 25 de outubro de 2018
Carlos Eduardo Lourenço Jorge <br> Especial para Folha 2 
O surpreendente e admirável longa-metragem paraguaio que inaugurou a seção "Horizontes Latinos" do Festival de Berlim 2018, e que estreia nesta quinta-feira (25) em Londrina, chega laureado pela safra de troféus não apenas daquela mostra europeia - premio FIPRESCI, Urso de Prata de melhor atriz e Prêmio Alfred Bauer para "filme que abre novas perspectivas para a arte cinematográfica" - mas também com seis Kikitos ganhos no recente Festival de Gramado, inclusive o de melhor filme da mostra latina. A estes reconhecimentos deve-se acrescentar o Sebastian Award, espanhol, conferido ao filme que melhor reflete os valores e realidades LGBTI.

O filme, a primeira produção paraguaia na história desse país a competir em Berlim, é uma comovente comédia dramática sobre uma mulher que deve enfrentar importante mudança em sua vida quando ao redescobrir seus desejos depois dos 60 anos. A apagada Chela (Ana Brun, a atriz vencedora em Berlim) vive há muitos anos com sua companheira Chiquita (Margarita Irún), muito mais desenvolta, extrovertida e criativa. A relação entre as duas já dura bastante tempo, e parece bem desgastada. Chela costumava ter uma vida econômica confortável, mas hoje se vê forçada a vender quase tudo que tem em casa. A dominante Chiquita, por sua vez, acaba de ser condenada a uma temporada na prisão por conta de "fraude". Assim, meio depressiva, Chela fica quase sozinha, na companhia apenas de uma empregada que não conhece bem. Ela então, gradualmente, começa a se encarregar da própria vida. Como? Você pode (aliás, deve) ver o filme para saber.
Chela começa a sair de seu silêncio e timidez, sentindo que pode ter outras opções. Conhece outra mulher, Angie (Ana Ivanova), mais jovem e com quem começa a relacionar-se quando tem que levar a mãe de Angie a um hospital em Assunção. Num corte minimalista, o diretor estreante Marcelo Martinessi vai traçando os desejos - físicos, românticos e de conexão - que permitem a Chela uma transformação em idade na qual muitas pessoas não se arriscam. Assim, enquanto a casa vai sendo esvaziada de móveis pela necessidade de dinheiro, a protagonista também vai se esvaziando um passado para começar a construir um futuro novo, quase do zero. Uma nova espécie de trabalho vai ocupar sua existência, e dar-lhe novo alento de liberação.
"As Herdeiras" pode não ser, ao menos formalmente, um filme audacioso. Mas é muito bem cuidado, de linguagem enxuta, cenas curtas, com atuações secas e controladas, muito guiadas pelo silêncio. Pode-se imaginar que uma história de mulheres, corpos e desejos em mãos de realizador mais explícito poderia render resultados mais espetaculares. Mas o comedido Martinessi preferiu observar e ouvir. Os detalhes, as sutilezas. Ele obtém grandes performances de suas três protagonistas em um filme que tem como detalhe que todos os personagens com peso na trama são mulheres (os homens são extras, ou estão fora da visão da câmera ou tem direito a apenas algumas linhas). E não apenas do trio central, mas das outras mulheres que fazem parte da mesa de carteado que Chela começa a frequentar. Através de todas elas, a sociedade paraguaia é retratada de maneira mordaz e provocadora.
Aos poucos, muito lentamente, o cinema começa a dar vida própria e dinâmica às aspirações de mulheres maduras. "As Herdeiras", de certa forma incômodo e ambíguo para algumas plateias, pode não ser o filme totalmente ideal para abrir o leque de debates a respeito de seus vários subtemas, mas talvez sinalize o momento em que personagens como Ana Brun, maltratados tanto pelo cinema como pela sociedade intolerante e preconceituosa, passem a ocupar o centro das atenções.


