Marcos Losnak
Especial para a Folha2
A literatura norte-americana possui uma singular capacidade de criar romances em que o protagonista não possui nenhum objetivo na existência. Esses personagens seguem simplesmente vivendo, alheios à felicidade pregada pela sociedade, alheios à ideologia do sucesso. Seriam o retrato de uma sociedade alegremente feliz, carregada de sucesso, um sociedade que gera pessoas infelizes, descrentes da vida e desesperançadas.
Em quase sua totalidade, esses personagens são do sexo masculino. Jovens e adultos que chutam a vida como um cachorro vadio, xingando a hipocrisia das relações humanas. Entre algumas exceções está Dolores, uma jovem mulher, personagem criada pelo escritor norte-americano Wally Lamb e protagonista do romance ‘‘Dolores Reinventada’’ que acaba de ser lançado pela Editora Record.
Dolores é uma garota que cresceu sentada no sofá assistindo à televisão e comendo. Carregada de cinismo, seguiu calmamente em direção à autodestruição. Vivendo numa família problemática, chegou à juventude com 130 quilos espalhados pelo corpo. Anti-social e envergonhada de sua composição física, optou por isolar-se do mundo carregado de hipocrisia.
‘‘Dolores Reinventada’’ foi o primeiro livro de Wally Lamb. Antes de publicá-lo em 1992, ganhava a vida como professor de redação. Na época o romance passou despercebido, um fracasso de vendas. Em 1997 a obra foi escolhida como tema de um popular programa de televisão americana e logo se tornou num best seller, algo em torno de 3 milhões de exemplares.
Tudo indica que o fato de ‘‘Dolores Reinventada’’ (título original ‘‘She’s Come Undone’’) ter se tornado um sucesso não está exatamente vinculado ao seu caráter literário, mas a história que narra, e principalmente pelo carisma que a personagem Dolores desperta. De certa maneira o livro pode funcionar como alimento para auto-estima. Trata-se de um romance, apesar de toda trajetória dolorosa da protagonista, com final feliz.
‘‘Dolores Reinventada’’ é narrado pela voz da própria Dolores. Começa com a lembrança do dia em que a primeira televisão chegou em sua casa, no final da década de 50. O raro aparelho foi presente da patroa (e amante) de seu pai, um rica e velha viúva. A partir desse dia, entre as incessantes brigas dos pais, a menina passa a ficar grande parte do dia sentada no sofá em frente à televisão.
Quando a mãe descobre que o marido possui outra amante, a família se desintegra. Ao lado da mãe, Dolores muda-se para a casa da avó. A residência passa a abrigar três geração de mulheres, avó, mãe e neta num conflito constante. Já adolescente, Dolores se apaixona pelo vizinho, um homem casado que acaba por estuprá-la. Sua vida fica resumida a três coisas: ver televisão, comer e ir ao supermercado.
Com a morte da mãe, num acidente, isola-se mais, engorda mais. Resolve então cumprir o último desejo da mãe, cursar uma universidade. Mas não consegue ficar por muito tempo na escola. Além de não conseguir socializar-se, tem vergonha de suas banhas. Envolvida em algumas confusões e assediada por uma funcionária lésbica, acaba fugindo com destino incerto. Acaba chegando no litoral e presencia um cena que ficará gravada em sua mente de maneira perturbadora: um baleia morrendo na praia, encalhada. Essa imagem se tornará recorrente em sua vida e sua grande libertação, no final do romance, será ver uma baleia nadando livre em alto-mar.
Pirada, Dolores é internada num hospital psiquiátrico, onde permanece por alguns anos. Através de psicoterapia, recupera a auto-estima, emagrece e consegue entender o ódio que sentia pelo pai, pela mãe e avó. Recuperada, resolve procurar o homem de sua vida, o namorado de sua companheira de quarto na universidade, rapaz que conhecia apenas através de cartas. Cartas roubadas que interceptava secretamente.
Como num conto de fadas, Dolores encontra o sujeito: apaixonam-se e casam-se. Isso até o dia em que chega mais cedo em casa e encontra-o na cama com uma de suas alunas. Logo em seguida é induzida a fazer um aborto. O castelo começa a cair. Dolores resolve contar a verdade que ocultou do marido, sua vida por completo. Não sobra pedra sobre pedra. Sozinha outra vez, sem marido, com a mãe, o pai e a avó mortos, segue pela vida sem nenhuma ilusão. -
Mesmo com toda a tragédia, ‘‘Dolores Reinventada’’ é um romance recheado com uma boa dose de bom humor. Wally Lamb realiza uma construção exemplar de personagem, Dolores torna-se cativante aos olhos do leitor. O problema é que o escritor cria uma narrativa extensa, longa, sem necessidade. Tentando expor todas as ações do cotidiano da protagonista, esbarra, em alguns pontos, no enfadonho. A impressão que fica é que Dolores é maior, mais desenvolvida, que a própria narrativa.
• Dolores Reinventada – de Wally Lamb, Editora Record, tradução de Celina Cavalcante Falck, 510 páginas, R$ 32,00.

mockup