As gafes entram em campo
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de agosto de 1998
Ranulfo Pedreiro 
A partida de futebol se desenrola no campo, mas as arquibancadas estão vazias. Ao comentar o fato, o narrador distraído solta a pérola: Os torcedores estão diminuindo. O ouvinte mais atento pode se assustar. Afinal, que fenômeno extraordinário faria com que pessoas encolhessem? A frase correta seria o número de torcedores está diminuindo.
Atento aos erros de português cometidos por locutores, comentaristas e jornalistas esportivos, o professor José Milton Gonçalves elaborou o livro Gafes Esportivas, lançado pela Presença Edições. Com bom humor, Gonçalves questiona uma série de clichês que afloram nas coberturas esportivas.
O goleiro
foi substituído
porque
teve a
mão cortadaDesde a época de estudante, eu sempre gostei das questões da língua, comenta Gonçalves, que é chefe do Departamento de Letras da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Presidente Venceslau, no Estado de São Paulo. O professor já possui quatro títulos publicados, entre eles Tira-Teimas de Português, que está chegando à terceira edição pela Editora Forense.
O esporte foi um pretexto para chamar a atenção das pessoas para que elas aprendam um pouquinho mais de português, ressalta. Milton Gonçalves assinava uma coluna sobre língua portuguesa aos domingos no jornal de sua cidade. O futebol é uma fonte inesgotável de erros linguísticos. Não quero dizer que os repórteres estão despreparados, mas o futebol é paixão e, no rasgo da emoção, eles falam o que não deviam, acrescenta.
No livro estão enumeradas 186 gafes, com suas respectivas correções. O erro número 15, por exemplo, dá idéia do humor que permeia a obra: Marcelinho foi expulso porque investiu no bandeirinha. A expressão investir no bandeirinha, à luz de alguma reflexão, é hilariante; faz rir até o torcedor que está aborrecido, vendo seu time perder de goleada. Investir em significa aplicar ou empregar capitais em negócios. No sentido de atacar com impetuosidade, usa-se com sobre ou contra.
As gafes que estão no livro são tidas como frases de efeito. Não publiquei com a finalidade de humilhar alguém, não mencionei a origem dos erros, pois não pretendia comprar briga, completa Gonçalves. O professor ouvia os deslizes durante transmissões esportivas, anotava e, posteriormente, publicava-os na coluna.
André Barbosa/reproduçãoNo final da partida, o jogador puxava uma pernaO toque de humor é salientado pelas ilustrações de André Barbosa, de Presidente Prudente. Eu tive uma surpresa agradável, porque os desenhos chamaram muito a atenção das crianças. O livro é fácil de ler, é feito em tópicos que não têm ligação entre si, argumenta.
Milton Gonçalves explica que, basicamente, o erro que os narradores cometem é o excesso. Por exemplo, dizer excesso de preciosismo é redundância, é pleonasmo vicioso. O livro apresenta dois tipos de erros: o erro propriamente dito e os erros que são classificados como acidentes de texto, que acabam sendo mais interessantes, se é que existem erros interessantes, assegura.
O autor deixa claro que não se pode exigir dos locutores uma linguagem como a de Machado de Assis, mas que existem deslizes graves, como a gafe número 104: Havia perto de mais de 40 mil torcedores. Tarefa ingrata é tentar descobrir o sentido dessa frase. Afinal de contas, quantos torcedores havia: mais, ou menos de quarenta mil? Perto significa quase, mais exprime excesso. Só um cego não vê que os dois termos estão brigando, diz o texto. E o professor salienta: Não se pode aceitar uma coisa dessas.
André Barbosa/reproduçãoO zagueiro estufou o peito e ganhou o lance na moralGafes Esportivas já está tendo repercussão, segundo Gonçalves. O que eu tenho percebido é que o pessoal do esporte tem mostrado interesse. Já vendi muitos livros, e estamos pensando numa segunda edição, revela. A primeira edição saiu com 5 mil exemplares.
José Milton Gonçalves pretende lançar também, pela Forense, o livro Português Prático para Futuros Advogados até o começo do próximo ano. O livro Gafes Esportivas está à venda na Livraria Bom Livro, no Shopping Catuaí, em Londrina, por R$ 14,90. Os interessados podem também entrar em contato com o autor pelo telefone (018) 271-2128.


