As estripulias de Mr. Bean chegam à telona
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 21 de agosto de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
ReproduçãoMr. Bean: provocando o lado inusitado e ridículo das pessoas e das instituições, às vezes com
surpreendente crueldadeÉ no mínimo insólito e peculiar - mas não cem por cento original - o humor produzido pelo inglês Rowan Atkinson, o popular Mr. Bean. Aliás, entre nós nem tão popular assim. A não ser pela série de programas semanais vista somente pelo público ainda restrito da tevê paga e por no máximo uma dúzia de sketches repetidos e fracionados no Fantástico sopão dominical (Globosat alimentando Globo-rede), o personagem nunca chegou a empolgar o grande público. Não há, portanto, garantias de que Mr. Bean - O Filme (veja a programação de cinema na página 5) arraste multidões a partir deste final de semana nas principais cidades do País.
Fundado principalmente em gags físicas e visuais, com boa dose de pantomima, o humor de Atkinson é herdeiro direto da genialidade de Jacques Tati e seu personagem Hulot, um dos grandes da comédia cinematográfica contemporânea. Ambos solteirões e misóginos. A diferença, que coloca Bean em flagrante desnível no confronto direto com Hulot, é que a observação de mundo orquestrada por Tati esteve sempre temperada por uma delicada poesia. A intervenção de Tati era somente en passant , sutil, quase imperceptível, mas sempre decisiva para expor o absurdo e o ridículo da vida moderna, massificando o trabalho e o lazer das pessoas, como se observa em Meu Tio, As Férias de M. Hulot e Playtime.
Subversivo Já Mr.Bean é um desconstrutor deliberado, um agente subversivo que provoca o lado inusitado e ridículo das pessoas e das instituições, às vezes com surpreendente crueldade. Como Tati, verbalmente se expressa pouco - melhor, emite sons e grunhidos. Ao contrário de Tati, é mestre em caretas e às vezes o humor deixa de ser visual para ganhar textos. E na tradição destruidora de Chaplin, Keaton, Jerry Lewis e Peter Sellers, há momentos de caos, de desorganização na ordem dos objetos inanimados e na disposição das pessoas no espaço físico.
Em Mr. Bean - o Filme, o abusado personagem deixa a conhecida paisagem londrina e vai aos Estados Unidos. Ele aqui é um especialista em arte, convidado para autenticar o quadro de um figurão (Burt Reynods). A partir das confusões arranjadas por Mr. Bean, Los Angeles dificilmente será a mesma cidade depois de sua volta à Inglaterra. Quem assina a direção é Mel Smith, o que significa pouco ou nada, já que Mr. Bean é um desses filmes-solo cada vez mais raros.


