As estranhas obsessões de David Cronenberg
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 28 de fevereiro de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
DivulgaçãoCena de Crash, filme de David CronenbergNa noite de encerramento do Festival de Cannes do ano passado, o presidente do júri, Francis Ford Coppola, anunciou o Prêmio Especial para Crash, de David Cronenberg (veja a programação na página 3) . E argumentou favoravelmente, ressaltando a originalidade, a audácia e a inovação. Hábil a maneira como Coppola colocou em evidência as qualidades do filme. A partir daí, a justificativa tem sido incorporada a qualquer citação, peça publicitária, iniciativa de defesa ou solidariedade diante das muitas manifestações de condenação e/ou repúdio ao filme. Que, é bom dizer, continua proibido em diversos países da Europa, inclusive em parte da Inglaterra. O Brasil, quem diria, é um dos raros onde a distribuição vem ocorrendo sem qualquer constrangimento seja de quem for, permitindo que o público decida soberano se deseja ou não participar desta jornada absolutamente incomum em mão única e sem limites, rumo aos ferros retorcidos, ao êxtase, à dor e à vertigem.
Fascinação e repulsa Aos 53 anos, o canadense David Cronenberg está longe de ser um debutante, mas sua reputação de cineasta incomum praticamente se mantém intacta desde Videodrome, de 82. A notoriedade, é certo, só viria depois, com A Mosca e Gêmeos - Mórbida Semelhança. E apesar do sucesso, o cineasta soube conservar uma crua originalidade. Sempre fiel às suas obsessões (o sexo, a tecnologia, a ciência e a metamorfose, sob todas as formas impossíveis e inimagináveis), Cronenberg vem explorando, de filme para filme, por 11 vezes, um território onde somente ele parece conhecer os limites. E por ser assim excessivo e consequentemente contar só às vezes com a adesão do público, ele provoca fascinação e repulsa em doses iguais e alternadas. Crash, romance-culto de J.G Ballard (O Império do Sol), não foge a estas regras.
Polêmico pela própria natureza, o filme descreve o relacionamento de um casal obcecado por sexo e automóvel. Assim resumido, em uma frase banal, Crash pode parecer um desses retratos de adolescentes do Meio Oeste americano, se espremendo no banco traseiro de um velho carro. Não é bem assim. O publicitário James Ballard (James Spader) e sua mulher, Catherine (Deborah Unger), têm uma vida sexual dissipada. O casal se envolve num violento acidente de carro. Após a batida, James reencontra a dra. Helen (Holly Hunter), que acaba de perder o marido. Em companhia desta mulher, James vai descobrir um estranhíssimo mundo povoado por grandes acidentes e um culto ao sexo temperado por aço e ferro retorcidos. Cronenberg, uma vez mais, demonstra que a essência de sua obra está na transformação sistemática do real, na inerente perversão das situações e no absurdo existencial dos personagens. Não é, obviamente, um filme para grandes platéias, ainda que seja considerado audacioso. Sem duvida é, e não existe nada conhecido em cinema que se pareça com esta frieza metálica para tratar as coisas do sexo. Destinado basicamente à polêmica, Crash trabalha provocando o espectador a um só tempo através de fundo e forma. No tema, associando tecnologia, sexo, morte e destruição, elementos muito universais e muito íntimos; e na narrativa, onde as regras clássicas estão subvertidas. Aqui o que vale é somente a força das imagens e dos sons, em busca de uma outra realidade existencial dos personagens.
Não é possível qualquer tipo de antecipação sobre quais as reações do público diante de Crash. Podem ir da simples indiferença à mais ostensiva repulsa. Mas não estão descartados fascínio e sedução. Afinal, não é tão difícil perceber o que esta obra artística está celebrando: uma nova forma de sexualidade num mundo regido pela tecnologia. Crash descreve sem qualquer amenidade os efeitos perversos provocados pela cultura do automóvel. Vai mais além. Desglamuriza sem qualquer atenuante uma idéia que assombra o fim de século: o corpo individual e o corpo social em mutação.


