Diva incontestável da música popular norte-americana, consagrada com todos os grandes prêmios do show biz, Barbra Streisand também é hoje, aos 54 anos, uma superstar do cinema mundial. E como fama, dinheiro e carisma nunca andam divorciados do poder, há algum tempo ela impôs sua vontade, abriu um espaço em Hollywood e vem se dedicando à construção de uma curiosa carreira paralela como cineasta - produtora e diretora. Seu terceiro filme ‘‘cumulativo’’ , a comédia romântica ‘‘O Espelho Tem Duas Faces’’, está sendo lançado hoje em todo o Brasil (veja programação de cinema na página 3).
A judia Barbra não podia ter estreado de outra maneira. Em 1984, encantada com um conto de Isaac Bashevis Singer, bancou a produção de ‘‘Yentl’’ e acabou fazendo história. O filme foi a primeira grande produção cinematográfica escrita, produzida, dirigida, interpretada e cantada por uma mulher, recebendo várias indicações para o Oscar (ganhou trilha sonora original) e para o Globo de Ouro (melhor direção). O grande público respondeu bem às peripécias da garota que se disfarça de homem para tentar ser rabino.
Na segunda rodada como dublê de intérpete e diretora, em 1991, a atriz opera milagres da psiquiatria em ‘‘O Príncipe das Marés’’ e acaba salvando a vida atormentada de Nick Nolte, um paciente neurótico em busca de um acerto de contas familiar. Como contadora de histórias e condutora de personagens com um certo grau de complexidade, Barbra diplomou-se sem maiores problemas. Segura, partiu para seu terceiro longa, este que a partir de hoje entra em exibição em 120 salas brasileiras.
Equação complicada ‘‘Professor da Columbia Univesity procura mulher interessada em objetivos comuns e companhia. É necessário ter doutorado e mais de 35 anos. A aparência física não é importante.’’ Com este classificado, o professor de Matemática Gregory Larkin (Jeff Bridges) está tentando botar ordem em sua vida amorosa. Para ele, não mais paixão e sexo; abaixo o sofrimento, viva a união assexuada, baseada na amizade e no respeito por quem ele não sinta nenhuma atração física. A mensagem vai afinal ser recebida e decodificada por Rose Morgan (Barbra Streisand), professora de Literatura na mesma universidade e no momento em exasperante disponibilidade. Para ela o colega é um achado. Eles se conhecem e parecem se entender confortavelmente, terminando num casamento pouco ortodoxo no qual a paixão intelectual é superior ao desejo sexual. Apesar da aparência asseticamente nobre, o contrato menospreza algumas necessidades humanas fundamentais. E daí ao caos é um passo muito curto, já que no fundo Rose pretende um dia quebrar a resistência de Gregory.
Com esses dois personagens e mais um pretendente bonitão e rico (Pierce Brosnan), uma mãe obcecada com a beleza física (Lauren Bacall), uma irmã egoísta (Mimi Rogers) e uma ótima melhor amiga (Brenda Vaccaro), ‘‘O Espelho Tem Duas Faces’’ procura definir, de maneira sutil e não desprovida de charme, o que são as complexas relações passionais, quais as possibilidades de transformações pessoais e qual o papel do amor nesta luta surda entre razão e sentimento, ou melhor, entre intelecto e tesão. Ainda a considerar outro subtema de irresistível fascínio: a ilusão superficial da beleza física como uma espécie de bomba-relógio nos relacionamentos afetivos. O roteiro original (Richard LaGravenese), recheado de ótimos diálogos e situações bem amarradas, é do tipo que a Academia gosta e às vezes sente necessidade de premiar.
Narciso no espelho Ok, Barbra já disse ao que veio. É diretora com méritos consideráveis. Tem timing. Sabe como manter com inteligência ou bom senso o interesse do espectador. É linear sem ser simplista, tem modernidade sem afetação ou rebuscamentos desnecessários. Extrai do elenco aquela indispensável carga de humanidade, dando aos atores uma boa dose de esperança e um tempo de crescimento.
O que incomoda em Barbra é uma grande, imensa e perigosa presença performática. Nos papéis da garota judia, da psiquiatra ou da professora universitária, e também nos outros 13 filmes que interpretou ela foi sempre Barbra, ela não se esquece de ser Barbra, de olhar para o próprio umbigo. E não se esquece também de recontar - a seu modo - a historinha que lhe é mais cara, aquela de quando (ainda hoje ?) era o patinho feio. A insistência com o tema da ditadura da beleza aqui remete a atriz para a frente do espelho, literal e metaforicamente, como que em busca de alguma imagem da diretora que possa suportar melhor o ego da estrela. E enquanto ela não se decide entre o perfil direito ou o perfil esquerdo, sua voz continua límpida e deslumbrante, como se pode avaliar em ‘‘Love Theme’’, composto por ela para a trilha sob a responsabilidade de Marvin Hamlisch.

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