Com o final da novela ‘‘O Clone’’ – cujo último capítulo foi reprisado ontem pela Rede Globo –, os personagens Mel (Débora Falabella), Nando (Tiago Fragoso) e Lobato (Osmar Prado) aparecem em processo de recuperação das drogas. Já Regininha (Viviane Victorette) desapareceu da trama assim como entrou: do nada. A abordagem dada ao assunto drogas pela autora Glória Perez gerou manifestações controversas.
Na novela, Mel sai de cena quando está há um ano sem consumir drogas. Ela e Nando – com a ajuda de Lobato – abrem uma clínica de recuperação como o nome de Regininha, a amiga dependente da qual eles nunca mais tiveram notícias. Recorde de audiência na televisão brasileira, a novela – que abordou outros temas como a clonagem humana e o casamento muçulmano – foi considerada um trabalho social ao mostrar o problema dos usuários e depoimentos reais de dependentes químicos e seus familiares.
A autora ganhou reconhecimento de entidades que enfrentam o assunto e do público pela coragem em abordar o tema. Por outro lado, encontrou resistência quanto à forma de apresentar o problema. A Folha2 entrevistou dois profissionais que trabalham com casos semelhantes e dois ex-usuários de drogas, que emitiram a opinião sobre a abordagem de ‘‘O Clone’’.
O psicanalista Marcelo Castro prepara uma tese de pós-graduação a ser apresentada em 2003 na Unicamp. O tema é ‘‘O uso de drogas na perspectiva de adolescentes e pais de adolescentes’’. Ele avalia que, antes de mais nada, a atitude de se falar no assunto é muito positiva, principalmente por ser um tabu. ‘‘A novela reflete a dura e triste complexidade das drogas. Houve um esforço educativo louvável na iniciativa’’, comenta. ‘‘Por outro lado, cabem algumas críticas em relação ao conteúdo’’, diz.
O perfil exagerado dos personagens passou em alguns momentos a impressão de esteriótipo ao psicanalista. ‘‘A gente percebe que não é sempre assim. Talvez uma caricaturização dos traços seja inevitável num recurso televisivo. Mas as consequências aparecem absurdas e evidentes demais. Isso pode ser um aspecto negativo, pois o exagero pode passar dúvida quanto à veracidade do que foi mostrado’’, analisa.
‘‘Cientificamente sabe-se que o surgimento do usuário e o surgimento do dependente químico parte de um fenômeno que é a propensão (na estrutura da personalidade) a desenvolver a dependência química. Uma evidência disso é que a imensa maioria dos adolescentes que experimentam a droga não desenvolvem a dependência’’, complementa.
Castro explica que a droga é um fenômeno sócio-cultural de uma sociedade que vive suas ambivalências. ‘‘No caso da Mel, todas as pessoas com um mínimo de bom senso de observação dizem: mas a menina é drogada porque o pai vive mal com a mãe, tem um amor de mais de 20 anos que nunca foi realizado... O personagem do pai é idealizado. Outros aspectos, intimamente ligados à relação tão frágil que ele exerce como pai, são valorizados. O bom-vestir, o bem-viver, o padrão de consumo, o padrão de vida, têm muito a ver’’.
Isso é relacionado com o que a própria televisão vende nos intervalos comerciais: o status, o prazer, a qualidade de vida. ‘‘A primeira experiência de prazer no uso da droga – enfatiza o psicanalista – é que vai ter o papel decisivo ou não na escolha do usuário’’. E o que acontece então? ‘‘No intervalo das novelas, a televisão é dirigida, sustentada e bancada pelo consumo com base no discurso do prazer. Estamos falando de uma sociedade de consumo e também de consumo de drogas. Será que uma coisa é tão dissociada da outra assim? A cultura na qual vivemos está cultuando cada vez mais o prazer sem esforço, o consumismo. Na busca pelo consumo de bens, o sujeito mergulha numa desconstrução de qualquer individualidade’’.
A droga, segundo o médico, é como o drogado na família: funciona como bode expiatório dos males da sociedade. Valendo-se de caricaturas, ninguém questiona o pai que ‘precisa’ de um uísque para relaxar depois do trabalho ou a mãe que só dorme à base de calmantes. ‘‘Mas quando essa família descobre o pacotinho de maconha no fundo da gaveta do filho aí a casa cai’’.
O psicólogo Wiliam Peres, professor do Departamento de Psicologia Clínica da Unesp de Assis e doutorando em Saúde Coletiva pelo IMS/UERJ (Instituo de Medicina Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro), avalia que a autora Glória Perez mostra a realidade do usuário na proporção de um em cada mil. ‘‘Nesse extremo de perda da realidade total, um quadro mais grave, é um percentual menor’’, sinaliza.
Peres cita uma entrevista do psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira – diretor do Proad (Programa de Orientação e Assistência a Dependentes), da Universidade Federal de São Paulo – concedida à revista IstoÉ Gente em abril. O psiquiatra chegou a ser consultado por Glória Perez e ficou entusiasmado ao saber que a novela iria abordar a questão. No entanto, decepcionou-se com o que viu na telinha. Para ele, a autora errou a mão ao retratar personagens extremos e distantes da vida real da maioria dos que usam maconha, álcool e cocaína. Em trechos da entrevista diz que o grande risco foi cair no estereótipo.
Para Wiliam Peres, a preocupação maior é exatamente com o pai que pega o filho fumando maconha e cria uma situação de desespero, de achar que o filho vai ficar daquele jeito. ‘‘Isso é dar uma superdimensão ao problema. No jornal, li que as clínicas triplicaram a procura. Claro, a saída é dar tratamento...’’.
O psicólogo diz que a novela perdeu a dimensão sócio-cultural e econômica e deixou de lado alguns pontos. ‘‘A falta de lazer deixa a pessoa em estado de angústia fazendo com que ela busque subterfúgios. Nesses casos, elas optam por esportes, internet ou drogas (lícitas e ilícitas). O aumento do consumo de álcool, por exemplo, faz com que os jovens entrem em situações de vulnerabilidade, como acidentes de trânsito, maior exposição frente ao HIV, às Doenças Sexualmente Transmissíveis ou a gravidez indesejada. Isso não é mostrado’’. Ele ainda questiona: ‘‘Temos 40 milhões de miseráveis no Brasil, falando em termos econômicos e culturais. A novela mostra uma situação de classe média-alta. Não é acessível a todos os grupos sociais’’.
Um lado positivo da abordagem – salienta Peres – foi a atuação do personagem Lobato, que falou da importância dos grupos de ajuda na recuperação. ‘‘Não se pode obrigar o usuário ao tratamento. Ele tem que querer e a família tem que se disponibilizar a entrar em análise, não só para entender culpabilizações, mas para poder trabalhar sua insegurança’’.

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