A liberdade é uma coceira. Quanto mais o homem corre atrás dela, mais ela coça. E as unhas, nesse processo, abrem caminho através da pele, revelando os músculos, o sangue. Quanto mais o homem salta em direção da liberdade, mais e mais feridas espalham-se pelo corpo. Uma chaga ambulante. Com o passar dos anos, ele pode finalmente alcançar o que procurava, mas estará tão cansado e dolorido que será incapaz de provar a liberdade de maneira plena.
Este homem, mesmo não saboreando por completo a tão almejada liberdade, se revelaria um ser transparente, despido de qualquer tipo de falsidade e hipocrisia. Um homem desprovido de embalagem, desprovido de pele, capaz de expor sua essência através de músculos, de nervos e, dependendo de suas chagas, até mesmo através de seus ossos aparentes.
Dessa maneira pode ser resumida o sentimento apresentado pelo escritor francês J. M. G. Le Clézio no romance ''Peixe Dourado''. Lançado pela Editora Companhia das Letras, o livro não realiza elaboradas reflexões sobre a liberdade, mas oferece uma narrativa grávida de sutilezas que pode levar o leitor a entrar no tema de maneira emotiva.
Escrito em 1997, ''Peixe Dourado'' apresenta uma história contemporânea, onde os limites geográficos são eliminados para que os limites individuais sejam reforçados. A liberdade é deslocada para o exterior para suprir as deficiências da liberdade interior. Onde a busca da realização pessoal esbarra na busca da felicidade do outro. Nas palavras da protagonista, resumido da seguinte forma: ''Aprendi que, se as pessoas tiverem que escolher entre você e a felicidade própria, não será a você que escolherão.''
''Peixe Dourado'' conta a história de Laila, um mulher em busca de liberdade e, principalmente, de si mesma. Aos seis anos de idade foi roubada da família, que habitava a região do Saara ocidental. Perdida e assustada, é vendida no Marrocos a uma velha senhora judia. Tratada num misto de empregada e neta, leva uma vida reclusa envolvida com os afazeres da casa.
Quando a senhora morre, Laila se vê desamparada. Acaba caindo nas mãos da irmã da falecida. Após sofrer todos os tipos de maltratos, consegue fugir encontrando abrigo num prostíbulo. Adotada como mascote de todas a moças da casa leva uma vida tranquila até que a polícia fecha o local.
Ao lado de uma das moças, viaja para a Europa de maneira clandestina na esperança de uma vida melhor. Fixa residência na França, onde passa a engrossar o enorme contingente de estrangeiros sem visto de permanência no país. Fechada em guetos de negros, sofrendo o constante risco de extradição, Laila passa por todo tipo de situação. Separando as boas das más, vai firmando sua liberdade como se construísse uma escada aparentemente sem fim. Graças à sua beleza negra, desperta a atenção e os desejos de homens e mulheres. O amor, então, torna-se um problema a ser resolvido.
''Peixe Dourado'' é narrado pela própria Laila. Sua história é apresentada de maneira direta, como se sua voz íntima vasculhasse os acontecimentos em busca de uma preciosidade: de seu passado, de sua origem natural. Le Clézio reforça uma tese recorrente na literatura contemporânea, aquela que demonstra que toda pessoa com um passado em suspenso só conhecerá tranquilidade em sua existência quando tocar esse passado. A superação do vácuo existencial só seria eliminado como um encontro, cara a cara, como representação deste vácuo.
O passado, apresentado por Laila, pode ser descrito como uma dessa bolas de ferro, presa no tornozelo com uma corrente, que os condenados usavam nos filmes antigos. E a liberdade, nesse contexto, não seria uma serra que romperia a corrente, mas a intenção do condenado em abraçar sua bola, em abraça sua própria prisão.
Nascido em 1940, Jean-Marie Gustave Le Clézio é um dos grandes nomes da literatura francesa em atividade. Autor de quase 30 livros (romances, poesias e ensaios), recebeu os mais significativos prêmios literários de seu país. No início da década de 1994 foi eleito como o maior escritor vivo em língua francesa, concorrendo com nomes como Margarite Duras e Milan Kundera.
No Brasil seus livros começam a ser publicados na década de 80 - como ''Deserto'' e ''À Procura do Ouro'' - e apenas recentemente voltaram a receber atenção das país. Para se ter uma idéia, seu último romance foi lançado aqui em 1997 - o belo ''A Quarentena'' (Companhia das Letras), que relata a experiência de um grupo de ricos europeus isolados numa ilha na companhia de escravos sob a suspeita de contaminação desconhecida.
O título de ''Peixe Dourado'' sugere a subjetiva condição da personagem narradora. Por sua beleza e personalidade, Laila, apesar das agressões que sofre, recebe ajuda das mais variadas pessoas. Mas o tempo revela que a ajuda sempre vem atrelada a uma série de exigências. Sejam elas sexuais, emocionais ou materiais. Segundo seu entendimento, essa ajuda sempre atinge um limite opressor, sufocante. Isso porque as pessoas procuram fazem com que ela seja parte integrante de suas vidas num espécie de escravatura emocional.
Em outras palavras, Laila seria um peixinho dourado nadando num riacho hostil. A tendência das pessoas, de maneira geral, não seria admirar o peixe nas águas em que vive. Mas colocá-lo num aquário na sala de casa. A ajuda vinculada a uma posterior é abordado por Le Clézio de maneira não intelectual. E a liberdade da personagem um alto preço a ser pago. O que não anula o desejo de ter total autonomia diante a própria vida.
As feridas da liberdade podem causar um certo mal estar, ou até nojo, ao olhar do outro. Da mesma forma que o outro pode achar belo o peixe dourado preso num aquário na mesa da sala. A liberdade é uma coceira, e as mesmas mãos que podem prender o peixe também podem coçar o corpo - e quem sabe a própria alma - até deixar tudo em carne viva, com os músculos, os nervos e os ossos aparentes. Pode causar dor, mas produz a revelação.
Peixe Dourado, de J. M. G. Le Clézio, Editora Companhia das Letras, tradução de Maria Helena Rodrigues de Souza, 216 páginas, R$ 26,00.

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