O amor é um sentimento absurdo. Quanto maior o peso, maior é a capacidade de fazer estragos à sua volta. Como se trincasse o chão por onde passasse. Como se abrisse uma profunda fenda sob os pés. Como se arrastasse a reboque, numa espécie de terremoto, pessoas próximas.
  Se o amor é um sentimento absurdo, o ódio também segue caminho semelhante. E quando o homem sente ódio por ter amor em demasia, a loucura mistura tudo em meio a uma grande escuridão. Uma escuridão que, apesar de tudo, sonha com a luminosidade, com a claridade de dias ensolarados. Com a esperança de olhos embriagados.
  O dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues (1912- 1980) percebeu esse absurdo latente do amor e fez dele matéria-prima de sua literatura. Viu que o amor é um caótico buraco negro que subverte qualquer normalidade, principalmente aquela que desfila seus alicerces como adorno.
  Em seu dramaturgia, trabalhou nessa perspectiva com maior refinamento. E para chegar a esse refinamento fez do jornalismo seu pátio de obras. Isso fica mais uma vez evidente com a publicação de ‘‘Pouco Amor Não é Amor’’, livro que reúne contos que Nelson Rodrigues escreveu década de 50, para o periódico carioca ‘‘Jornal da Semana’’ (também conhecido como ‘‘Flan’’). Nessas histórias mostrava, com ácido humor, que o amor pode ser uma doença que só a morte é capaz de curar.
  Essas histórias, que permaneceram inéditas em livro por 50 anos, estão reunidas em ‘‘Pouco Amor Não é Amor’’, lançado pela Editora Companhia das Letras e organizado por Caco Coelho. São pequenos contos parecidos entre si que mostram relações amorosas pautadas basicamente pela traição, adultério e ciúme.
  Como em toda obra de Nelson, as obsessões são o prato principal dos contos. Sabendo que escrevia para o leitor comum, trabalhava com uma abordagem popular, como aquelas dos casos reais noticiados pelos cadernos policiais. Em vez de sangue, a fofoca assume da forma da secreção que sobra no chão após o corpo ser levado para o cemitério.
  Grande parte das histórias termina em suicídio ou em assassinato. A morte fica carimbada como a solução mais plausível para os grandes problemas, sejam sentimentais ou morais. Elas oferecem uma dimensão ampliada da intimidade familiar onde o bizarro rasga a pele como uma irônica pústula nascida em nome do amor – ou outra coisa mais enganosa que o próprio amor.
  Em todas as narrativas, o excesso é o princípio básico. É tudo ou nada. O próprio título do livro resume o conteúdo. Principalmente para aqueles personagens que sempre levaram uma vida pautada pela mesmice. Como se a mesmice fosse um vulcão extinto que, de uma hora para outra, impulsionada por uma ínfima faísca, detonasse uma explosão meteórica.
  Em todos os contos de ‘‘Pouco Amor Não é Amor’’ Nelson Rodrigues faz uso de uma mesma estrutura narrativa. No começo apresenta o personagem, na seqüência instaura um dúvida ou uma tentação em sua cabeça. Aí sente-se à vontade para disseminar o vírus da tragédia sob o céu da obsessão.
  Invertendo o senso comum moral, revela tudo aquilo que pode esconder-se no íntimo de um homem ou uma mulher. E esse íntimo, por ser pouco revelado, torna-se, por isso mesmo, mais provável, mais real. Num dos contos, por exemplo, a esposa, após década de casamento, pede para que o marido não tire a dentadura para dormir. Ela deseja apenas um ‘‘pouco de poesia’’ durante a noite.

  Passa o tempo. Dois anos depois, o marido entra em casa e chama a mulher. Trancam-se no gabinete. Inquieta e curiosa, ela pergunta: ‘‘Mas o que é que há?’’. O marido mete a mão no bolso, puxa o revólver e o põe em cima da mesa. Numa espécie de deslumbramento, Maria da Graça olha a arma. Então, Aurélio começa:
  – Nem sempre o marido é o último a saber. Eu, por exemplo, fui o primeiro.
  Ela balbucia: ‘‘Mas saber o quê, criatura?’’. E o marido, arquejante:
  – Que tu me traias. Eu sempre soube. Não fui nunca um marido enganado. Sei, também, que teu amante partiu, hoje, para a Europa. Tu foste levá-lo ao Galeão. É verdade ou é mentira? Responde! É verdade?
  – É verdade, tudo verdade! E agora? Vais me matar? Vais fazer comigo o que teu pai fez com tua mãe? – Pausa e pergunta, em voz baixa: – Veneno ou tiro?
  Dir-se-ia que investigava o marido, que o açulava. Então aquele homem a segurou pelos dois braços: ‘‘Eu devia te matar, tu merecias morrer. Mas não posso, porque te amo, te amo, te amo!’’.
  E tem um soluço maior:
  – Eu te perdôo! Eu te dou meu coração!
  Num delírio, quer beijá-la. Mas Maria das Graças desprende-se, num repelão selvagem. Grita, fora de si:
  – Não quero teu perdão! Tenho nojo do marido que perdoa! Nojo!...
  Fugiu correndo como se o perdão do marido a tivesse humilhado para sempre.
(Fragmento de ‘‘Pouco Amor Não é Amor’’, de Nelson Rodrigues)

mockup