As diversas facetas da bondade
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de março de 1999
Zeca Corrêa Leite 
A bondade, assim como todos os sentimento, é um grande jogo de espelhos. Ao mesmo tempo que mostra uma face amena e gentil, por detrás de suas paredes encerra mecanismos de dissimulação e poder. Em alguns casos a bondade nada mais é que a aparência plácida do ditador. A Boa, um dos destaques do fringe, mostra paralela do 8º Festival de Teatro de Curitiba, que estréia hoje no Novelas Curitibanas, trabalha com esses elementos.
No elenco estão Ana Kutner e Milhem Cortaz, vivendo um casal em situações opostas. Ela é uma mulher de classe média. Ele, um mendigo que tem toda uma história atrás de si. Milionário em outros tempos, abandonou tudo para encontrar sua própria essência. Volta ao pó e retorna aos poucos à condição humana.
Da solidão social quando era um ser abastado, ao nada em que se transformou, encontrou a paz. Por acaso esbarra com a mulher que se julga de uma bondade extremosa. Essa espécie de santa coloca-se ao seu lado para ajudá-lo a ser bom e, assim, ganhar os céus e ser feliz. Começa o jogo do manipulador e do manipulado.
A peça fala da falta do amor, comenta Cortaz, que esteve em Curitiba num dos festivais passados com O Melhor do Homem, considerada uma das melhores montagens daquela edição. Retornou numa segunda vez integrando o elenco de Rei Lear, estrelado por Paulo Autran, e agora promove a estréia nacional de A Boa.
Para o ator a sensação é de maior intimidade com a cidade, ao participar da mostra paralela. É como se fosse um festival interno, entende ele, pelo número de peças locais. Estou orgulhoso, afirma.
Ana Kutner não tem essa experiência com os palcos curitibanos, mas existe uma ligação afetiva pelas raízes criadas por sua mãe, Dina Sfat. Filha de Dina e Paulo (que está vindo prestigiar o trabalho, do qual é realizador), Ana cita a secretária da Cultura, Lúcia Camargo, como uma grande da família e uma das pessoas-chave para a vinda da peça à cidade. Ela seria uma espécie de madrinha da gente.
Este trabalho dá início ao surgimento de um novo grupo, segundo Ana. O texto de Aimar Labaki recebeu a direção de Ivan Feijó, que o casal considera um dos melhores profissionais da nova geração. Os dois apostam tanto na qualidade do que ele faz que deixaram o Rio de Janeiro, onde estavam morando ultimamente, e voltaram a São Paulo. Ele é fantástico, afirma Cortaz.
Não só ele. Diz Ana que está havendo sucessão de pequenos namoros nesta trajetória em direção à concretização do espetáculo. Tem o Ricaro Rizzo, na assistência de direção; Isabela Lomez (atriz e coreógrafa), responsável pelo trabalho corporal; a figurinista Kica Lopes, que assinou os desenhos das roupas de Policarpo Quaresma e O Homem da Capa Preta, entre outros filmes, e a realização de Paulo José.
A iluminação de Mirella Brandy é uma coisa, continua Ana. Para iluminar o palco são utilizadas 40 lâmpadas comuns, de todas as voltagens. Assumimos a ousadia do simples, acrescenta Milhem Cortaz. O cenário, todo em vermelho para a mulher, tem a forma de um casulo para o homem de rua. Sangue e terra estão muito próximos, mas entre um e outro está o tortuoso caminho das relações, dos segredos embutidos, a busca da felicidade e da paz.
A Boa, de Aimar Labaki. Com Ana Kutner e Milhem Cortaz. Direção de Ivan Feijó. Hoje, às 17 horas e meia-noite, no Teatro Novelas Curitibanas (Rua Carlos Cavalcanti, 1222, telefone 233-8552).


