As delícias do litoral baiano
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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2002
Sandra Soares Agência Estado 
O prosaico e enorme caranguejo-úça de fibra de vidro e resina exposto numa praça de Canavieiras, no sul da Bahia, indica: Você está na capital nacional do caranguejo. E a placa colocada ao lado Proibido sentar na estátua evidencia a minuciosa preocupação da prefeitura em preservar as riquezas da região.
Distante 200 quilômetros de Porto Seguro e 111 km de Ilhéus, o município que abrange a cidade (situada numa ilha) e a Ilha de Atalaia, ligada por uma ponte reúne 50 km de praias amplas, limpíssimas, repletas de coqueiros e o maior manguezal do Brasil em biodiversidade, o que o torna o principal produtor do crustáceo no País.
Sua mais conhecida atração gastronômica é preparada de diferentes maneiras nos restaurantes de beira de praia ou nos do centro histórico um corredor de casinhas no estilo neoclássico coloridas e superconservadas, que inspirou a Rede Globo a criar a cidade cenográfica de Porto dos Milagres (localizada a 40 quilômetros, na Ilha de Comandatuba).
Desde que as ONGs Axé Puã e Ecotuba começaram a atuar com os pescadores locais prevenindo a extinção do caranguejo elas os orientam a devolver para o mangue as fêmeas e os machos menores de 4,5 centímetros , os pratos ficaram mais saborosos, já que os cozinheiros recebem o crustáceo mais graúdo.
As instituições ensinam também a poupar o robalo, outro ingrediente culinário abundante nos diversos rios da região, suspendendo sua pesca no período reprodutivo, entre 15 de maio e 1º de agosto. A Ecotuba conta até com o apoio do ator americano Harrison Ford, que descobriu Canavieiras em 1998 e desde então voltou quatro vezes.
Preservar vem se tornando palavra recorrente no vocabulário dos habitantes da região. Os turistas têm a sensação, aqui, de estar na Porto Seguro de 30 anos atrás, garante Luiz Manno, proprietário do Ilha de Atalaia Resort, confortável hotel localizado em uma praia deserta a que se chega por estrada de areia. A população não permitiu que o caminho fosse asfaltado para não descaracterizá-lo, segundo Manno.
Com suas tranquilas ruas de terra ou de pedra, tomadas por bicicletas e moto táxis, Canavieiras é simples e acolhedora, a que se deve desfrutar calmamente, no ritmo baiano. Possui bons bares e restaurantes (entre eles o Bar do Nacib, onde foram gravadas algumas cenas da novela Porto dos Milagres) perfeitos para jantares intermináveis, esticados por uma boa conversa com os nativos, conhecedores do passado riquíssimo no auge do ciclo cacaueiro.
Foi no fim do século 19 que as casas de barro dos pescadores começaram a dar lugar aos pequenos palacetes construídos pelos coronéis do cacau ou por comerciantes europeus responsáveis pela importação do design neoclássico.
Mas Canavieiras não atrai os turistas apenas por sua arquitetura, gastronomia e quietude e sim, também, por ser um paraíso para os adeptos da pesca esportiva. Na ilha encontram-se cinco tipos de robalo e uma infinita variedade de peixes: é lá que se localiza o banco de corais Royal Charlotte, uma plataforma submersa que, por oferecer iscas naturais, concentra enormes cardumes.
É lá também um dos pontos do litoral brasileiro em que melhor se vislumbra o espetáculo da pesca do marlin, um peixe gigantesco: o maior já encontrado, em Vitória (ES), pesava 636 quilos. O pescador que vai em busca do marlin em alto-mar precisa ser amarrado por cintos em uma cadeira especial, pois corre o risco de ser arrastado. O molinete é preso em um suporte fixo; só é possível tirar o peixe da água depois que ele cansar de se debater.
Canavieiras oferece, ainda, banhos de mar e de rio, paisagens belíssimas, a possibilidade de pisar no cacau amassando, como fazem os peões das fazendas e de assistir a uma demonstração de extração da piaçava, um dos principais produtos da economia baiana. Sem contar o tratamento de pele natural e gratuito: basta banhar-se na lama negra, rica em enxofre é esfoliante, abrasiva e levemente radioativa da conhecida Ilha das Garças, bem próxima da cidade.


