Ás de Paus em terras nordestinas
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quinta-feira, 04 de junho de 2015
Marian Trigueiros<br> Reportagem Local 
O grupo londrinense Núcleo Ás de Paus embarcou ontem para uma nova jornada: levar o espetáculo "A Pereira da Tia Miséria" a comunidades carentes de cidades do interior do Ceará e, depois, do Maranhão. Durante o mês de junho, o grupo entrará em contato com a cultura da região, começando sua jornada no II Festival de Teatro de Rua do Ceará, na cidade de Maracanaú e, em seguida, para o VIII Festival dos Inhamuns, Circo, Bonecos e Artes de Rua, que será realizado nas cidades de Tauá e Arneiroz. Depois, para o Maranhão para percorrer mais cidades do interior com o espetáculo e realizar a oficina "O Corpo Coletivo". Esta etapa só foi possível com o patrocínio do edital Artes na Rua 2014, da Funarte, que acaba de ser creditado - com oito meses de atraso.
Rogério Francisco, um dos integrantes do grupo fundado em 2008, conta que a viagem faz parte do objetivo do núcleo de levar arte a todos os cantos do País. "Este espetáculo é nossa primeira montagem e existe há mais de cinco anos. Neste tempo, já levamos nosso trabalho para diversos locais do Brasil. Conseguimos a parceria com o Festival do Ceará, que nos financiou o transporte. E, com a vinda do recurso do edital, estendemos nossa viagem. Mas ainda precisamos de dinheiro para outras despesas como hospedagem e alimentação. Porém, nossa vontade de estabelecer contato com essas comunidades e, ao mesmo tempo, o intercâmbio cultural é muito maior que qualquer obstáculo. É nossa oportunidade de poder levar a arte que acreditamos e novas possibilidades a essas comunidades, repletas de pessoas simples, mas com muita sabedoria. Estaremos lá bem na época das festas populares, o que, certamente, tornará a troca e aprendizagem muito maiores", pontua.
Foi a partir da criação de "A Pereira da Tia Miséria" que o grupo percebeu a riqueza e a importância de se fazer um espetáculo na rua. Segundo Francisco, os atores puderam notar que o espetáculo tocava as pessoas que o assistiam de um modo diferente, que ficava evidente quando se abria um espaço de conversa após a apresentação da peça. "Nas comunidades mais carentes, esta abertura se tornava um espaço de diálogo que não se restringia apenas ao espetáculo. Percebemos que as pessoas começavam a falar de suas experiências, de seus anseios, de problemáticas relacionadas à comunidade em si, enfim, recriava-se, de forma espontânea, o sentido do lugar público."
A oficina, por sua vez, acaba envolvendo ainda mais a comunidade, já que, a partir das dinâmicas teatrais, os ministrantes buscam sensibilizar os participantes e explorar a capacidade criativa de cada um a fim de que, juntos, eles possam construir algo por meio da arte.
Além da turnê pelos dois estados, o núcleo já se programa para participar de outros festivais ao longo do ano e, também, a estreia de um novo espetáculo em Londrina, ainda sem nome definido, em meados de setembro. "A dramaturgia ainda está sendo construída, mas trata-se de outra história, relacionada à memoria afetiva familiar. O mais importante é que esse espetáculo marca uma fase de amadurecimento de nosso processo de direção e produção coletiva."
Nesse meio tempo, o grupo vai trabalhar na edição do documentário produzido a partir de imagens registradas na turnê pelo Nordeste. "Vamos disponibilizar o material em nosso site tão logo retornarmos de lá. O vídeo fará parte do acervo da companhia e possibilitará a divulgação desta importante vivência", garante.
O Núcleo Ás de Paus é composto por artistas que se uniram a fim de desenvolver uma linguagem teatral por meio do trabalho coletivo. A direção é feita pelo elenco de oito atores e as montagens da companhia contam com a colaboração de outros artistas. Em suas produções, instrumentos de equilibrismo como pernas de pau, muletas e bastões, em conjunto com cenário e figurino, formam os denominados "prolongamentos do corpo do ator", síntese de um entendimento continuamente pesquisado pelo Ás de Paus em seu fazer teatral.


