Em uma pequena aldeia, na Serra do Caparaó, em Minas Gerais, existiu um velho homem que viveu e contemplou a vida com suficiência, como se uma luz o iluminasse. Sendo sábio em suas palavras e justo em suas ações, era respeitado por todos; e muitos o visitavam, em sua morada simples, em busca de opiniões e conselhos.
Aconteceu, certa vez, que um geólogo, andando em pesquisas pela redondeza e tendo ouvido falar do venerando ancião, resolveu conhecê-lo.
A sua chegada ao vilarejo despertou grande interesse entre os seus habitantes, pois se vestia de modo diferente, usava um chapéu redondo e portava estranhos objetos. Curiosos, alguns o acompanharam à casa do velho, no alto de uma colina próxima.
Depois de expor os motivos da sua visita e discorrer rapidamente sobre os trabalhos que realizava, o geólogo tirou da mochila uma pedra transparente e disse: - Este é um exemplo das coisas que procuro. Eis aqui um cristal de rocha perfeito!
Segurando o cristal e examinando-o com curiosidade, o velho, após algum tempo, murmurou de modo quase inaudível:
- Perfeição de Deus... Perfeição dos homens...
Aberto o caminho para uma conversação cheia de promessas, o geólogo indagou:
- Senhor, tendo conhecimento da sua sabedoria, eu lhe pergunto se o homem, como ser vidente, pode alcançar a perfeição.
O dia declinava estendendo pouco a pouco as sombras dos montes. Algumas nuvens de chuva compunham o céu cingido pelo horizonte recortado.
O velho, derramando o olhar sereno por sobre os cumes sobranceiros, respondeu lentamente:
- Vê ao longe o arco-íris? Pois aquele que apanhar as cores de um arco-íris alcançará a perfeição.
Os montanheses simples, atentos ao diálogo, entreolharam-se interrogativos... E após um breve instante, desceram correndo pela encosta, deixando a sós o velho e o geólogo que, em silêncio, contemplavam pensativos o cair da tarde, com os homens e suas sombras alongadas afastando-se pelo declive da colina, enquanto o sol descia lento, para coroar com uma luz dourada os cimos das montanhas distantes.
RICARDO SATHLER Cirurgião-dentista, ex professor da faculdade estadual de odontologia da uel, membro da academia de letras, ciencias e artes de Londrina

Crônicas é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 50 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato e foto para [email protected].

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