AS CORES DE CHICO LIBERATO
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de maio de 2000
Michele Muller De Curitiba 
Francisco Liberato era um dos mais atuantes artistas plásticos da turma que usava os pincéis como arma contra o sistema político que dominou o Brasil a partir da década de 60. A informação pode parecer estranha a quem pisar no hall da Secretaria de Estado da Cultura, onde ele expõe 20 de suas obras. As crianças famintas no Nordeste e as dramáticas telas em preto-e-branco deram lugar a uma mistura inconfundível de cores alegres.
E são essas cores que fazem parte da mostra Tempo Latino/América, que poderá ser vista pelo público curitibano até dia 16 de junho. Vista em Paris, Salvador e Rio de Janeiro, a exposição primeira individual do artista em Curitiba vem ao Paraná com algumas telas inéditas.
Eu estou buscando coisas melhores. Quando comecei a entender o mundo, me revoltei e procurava denunciar o que via. Mas não quero acumular desgostos nem revoltas. Quero encontrar beleza no ser humano, conta. Não que Chico tenha abandonado o grupo dos vanguardistas. Ele concorda com o crítico de arte Frederico Morais que sua pintura continua sendo um manifesto, só que em defesa de uma cultura original da Bahia, da América Latina.
Suas telas são povoadas por simbologias trazidas da arte encontrada nos países latino-americanos antes da chegada de Vasco da Gama. A dimensão contemporânea que Chico Liberato dá à cultura dos incas, maias e índios brasileiros (o que pode ser percebido em seus sóis, cores fortes e forma arredondada de algumas obras) não é considerada por ele um resgate. Tudo isso ainda está presente no nosso dia-a-dia. É só olhar ao seu redor e deixar que o intelecto perceba isso, diz.
O artista não adotou o colorido das Américas por acaso, ou de forma inconsciente: sua relação com as cores foi construída a partir de uma conversa com o crítico Mário Pedrosa. Ele me disse que a arte brasileira é plumária. É influenciada pela beleza das aves. E isso ficou na minha cabeça, relembra.
Não foi à toa que Chico chamou mais de um de seus trabalhos de A Vida É da Cor que Pintamos. Ele acredita nisso desde que decobriu que não conseguiria exercitar a pintura aprendida na Escola de Belas Artes. E se for mesmo verdade, Liberato nunca esteve tão de bem com a vida. Sou meio calado, mas carrego muita alegria, define-se.
Tempo Latino/América exposição de Chico Liberato, no hall da Secretaria de Estado da Cultura (Ébano Pereira, 240). A mostra permanece até dia 16 de junho


