As chegadas e partidas de Lasse Hallstrom
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Na entrevista que Lasse Hallstrom concedeu à Folha2, durante o Festival de Veneza de 1999, por conta do lançamento mundial de ''As Regras da Vida'', ficou claro que este sueco radicado nos Estados Unidos era a cara de seus filmes: liberal discretamente à esquerda, simpático, elegante, reservado em seu inglês que conserva um quase imperceptível acento nórdico. E um tanto vago e distante nas observações e conclusões, como se deixasse para o jornalista lacunas a preencher. Seus filmes americanos são muito assim, principalmente os mais recentes: ''Gilbert Grape - Aprendiz de Sonhador'', ''O Poder do Amor'', ''As Regras da Vida'', ''Chocolate'' e este ''Chegadas e Partidas'', em exibição somente em Londrina (veja a programação de cinema na página 2).
Uma vez mais Hallstrom adaptou uma prestigiosa novela, agora o Prêmio Pulitzer ''The Shipping News'', de E. Annie Proulx, também título original do filme. E uma vez mais reincide naquilo que é uma constante em sua filmografia: o elogio à condescendência e à tolerância. Se em ''As Regras da Vida'' levantava bandeiras a favor do aborto e em ''Chocolate'' consentia com o ateísmo e as mães solteiras, em ''Chegadas e Partidas'' aborda temas delicados como o incesto, embora não seja esta a vertente principal do argumento.
Em geral, segue aqui sua linha de relatos ligeiros, mas com razoável carga emocional e temática, defendendo com intransigência o conhecimento dos fatos antes que eles sejam julgados, dando oportunidade a todos para se tornaram boas pessoas e, afinal, lançando um grito de otimismo num mundo de resto pouco receptivo a afagos humanistas. Este comportamento, convenhamos, é virtude não muito frequente, e a principio dá sempre a Hallstrom o beneficio da dúvida a caminho de uma quase absolvição..
O elenco peso-pesado de ''Chegadas e Partidas'' está comandando pelo sempre eficiente Kevin Spacey mera coincidência ou estaria se especializando em personagens patéticos e perdedores? no papel de Quoyle, um tímido e retraído indivíduo que trabalha no departamento de impressão de um jornal. A mulher dele, Petal (Cate Blanchet), o engana na própria casa diante de sua passividade. Mas Petal morre num acidente, e Quoyle decide mudar tudo em sua vida. Vai com a filha para uma distante e gelada região da Groenlândia morar com a tia Agnis (Judi Dench).
Na pequena cidade costeira de Newfouland, ele encontra trabalho como repórter do diário local, em particular na seção dedicada aos navios pesqueiros, ao mesmo tempo em que se torna amigo da viúva Wavey (Julianne Moore) e vai aos poucos descobrindo segredos familiares que teria preferido não saber.
À exceção de Quoyle, os demais personagens não chegam a estabelecer empatia com a platéia, e isto porque estão emocionalmente mal resolvidos. Os pontos mais débeis na direção de Hallstrom, minimizados nos últimos títulos, aparecem aqui com incômodo realce: o previsível e o inverossímil, encontrados em situações forçadas e/ou narradas com pouco vigor. E existe um encaminhamento final rumo ao melodrama que complica mais as coisas.
Apesar disso, ''Chegadas e Partidas'' mantém o interesse sem maiores problemas. E as locações, a iluminação, a direção artística e a trilha sonora são sempre fatores muito bem cuidados por Hallstrom, que mantém em nível elevado sua capacidade de criar mundos próprios a cada filme.


