AS CANÇÕES PERDEM A VOZ
Frank Sinatra morreu na madrugada de ontem de
ataque cardíaco. A voz se cala, sobrevive o mito
Ranulfo Pedreiro

France Presse
Frank Sinatra: primeiro contrato foi com a orquestra de Harry James, com quem gravou o sucesso ‘‘I’ll Never Smille Again’’A
va Gardner estava no apartamento de Artie Shaw - seu ex-marido e um dos nomes mais famosos do período das big-bands - durante uma festa. O telefone tocou. Era Frank Sinatra. Desesperado e com ciúmes, declarou que se despediria de Ava para sempre. A atriz ouviu dois tiros e se dirigiu imediatamente ao apartamento do cantor. Sinatra estava intacto: os tiros foram disparados no colchão. Pouco tempo depois os dois protagonizavam um dos casamentos mais conturbados de Hollywood.
Frank Sinatra não hesitava em exagerar nos meios para obter o que desejava. Era conhecido como galanteador, mas depois que as garotas frequentavam sua cama caíam no esquecimento e, muitas vezes, eram tratadas com grosseria. Suas artimanhas renderam comentários sobre uma suposta ligação com a máfia, que o teria ajudado a ganhar o Oscar em 1953. Especulações à parte, Sinatra tinha talento e usou-o com inteligência.

France Presse
O astro morreu na madrugada de ontem aos 82 anos, vítima de ataque cardíaco - Sinatra já sofrera um infarte este ano. A direção do hospital Sedars-Sinai, de Los Angeles, divulgou que ele estava com a família quando morreu. A saúde de Sinatra já preocupava os fãs na década de 50, quando o cantor teve problemas de garganta. Já nos anos 90, a debilidade se tornava visível. Sinatra chegou a desmaiar em uma apresentação na Virgínia, em 94, ao cantar ‘‘My Way’’. Desde então o cantor enfrentou uma rotina de exames e tratamentos.
O início da carreira de Frank Sinatra é nebuloso. Decidido a ser cantor ainda adolescente, ele teria se apresentado em bares, programa de calouros e em qualquer lugar onde houvesse um microfone à disposição. Segundo o livro ‘‘His Way - The Unathourized Biography of Frank Sinatra’’, de Kitty Kelley - que o cantor fez de tudo para impedir a publicação -, Francis Albert Sinatra nasceu em Hoboken, New Jersey, e tinha uma família problemática.

France Presse
Com Ava Gardner (à esquerda) Sinatra viveu o casamento mais tumultuado. Com Barbara, seus dias foram tranquilosTrês de seus tios teriam passagem pela polícia, o pai fora acusado de receptação de roubo e sua mãe ganhava a vida praticando abortos, além de dirigir um bar durante a Lei Seca. Seu pai achava a idéia de ser cantor indigna para um homem.
Uma das lendas sobre o início da carreira de Sinatra trata de sua admiração por Bing Crosby. Munido de um disco do cantor, o jovem Frank - cansado de apresentações que não lhe traziam grandes benefícios - entrou em uma daquelas cabines em que se gravava um disco com uma moeda, e depositou a voz sobre os arranjos de Crosby.
Esta teria sido a primeira gravação de Sinatra, destruída posteriormente por um produtor que ficou furioso ao descobrir que o jovem não era aluno de Crosby. Sinatra teria dito que não conhecia o cantor pessoalmente, mas tinha todos os seus discos, vira todos os seus filmes e, de certa forma, Bing Crosby era seu único professor.

France PresseEsta influência é importante na carreira de Sinatra. Assistindo a um show do cantor, Frank teria dito à namorada - Nancy Barbato - que conseguiria cantar daquele jeito. Eles se casaram em 1939. Nancy trabalhava como secretária e Frank como cantor e garçom.
De tanto rodar pelo meio musical, Sinatra foi contratado pela orquestra de Harry James, em que se destacou o suficiente para chamar a atenção de Tommy Dorsey, com quem gravou ‘‘I’ll Never Smile Again’’, saltando para o topo das paradas americanas.
Com o pé na fama, Sinatra dedicou-se às mulheres. Nancy fazia vistas grossas às traições do marido, mas não escondia suas mágoas. Em 1942 o cantor abandonou Tommy Dorsey e resolveu se apresentar por conta própria, assessorado por George Evans. O empresário teve a idéia de contratar garotas que desmaiavam diante de Frank. A estratégia deu certo e o pequeno teatro em Nova York - onde se apresentava - ficou lotado durante as apresentações.
Ao mesmo tempo Sinatra investia na carreira como ator. Apesar de alguns filmes inexpressivos, fez sucesso com ‘‘Marujos do Amor’’, em 1945, e ‘‘Um Dia em Nova York’’, de 1949. Mas sua carreira entrou em baixa no início da década de 50, período em que teria contatado a máfia para ganhar um papel em ‘‘A Um Passo da Eternidade’’, que lhe rendeu o Oscar de melhor ator coadjuvante. O fato foi citado pelo escritor Mário Puzzo em ‘‘O Chefão’’, provocando a ira de Sinatra, que exigiu satisfações do autor.
Frank Sinatra conheceu Ava Gardner em 1948. Após a estratégia do falso suicídio, se casaram - apenas uma semana depois da separação legal com Nancy. As brigas constantes abalavam o cantor, que chegou a tomar uma overdose de calmantes. Após uma separação, em 1953, Sinatra foi internado com os pulsos cortados. O fato foi justificado como um acidente envolvendo um copo quebrado. O divórcio com Ava Gardner só foi resolvido em 1957.
Para esquecer a atriz, Sinatra desfilou com várias estrelas. Em 1956 iniciou um romance com Lauren Bacall, esposa de Humphrey Bogart - de quem Sinatra era amigo - que já estava sofrendo com o câncer. Após a morte de Bogart, em 1957, Frank e Bacall também tiveram um relacionamento tempestuoso.
Com a chegada de John Kennedy ao poder, Sinatra aumentou o campo de influências. Ambos eram amigos e o cantor havia apresentado várias mulheres ao político. Mas, devido aos boatos sobre ligações de Sinatra com a máfia, Kennedy preferiu se afastar paulatinamente do cantor, que largou os democratas e associou-se aos republicanos.
Nesse período casou-se novamente, desta vez com a protagonista de um seriado de TV, Mia Farrow, que posteriormente desafiaria o cantor protagonizando ‘‘O Bebê de Rosemary’’. Preocupada com o teor do filme, Farrow mergulhou no misticismo, dedicando-se mais ao guru Maharishi - o mesmo dos Beatles - que a Frank Sinatra. A união se desfez depois de 16 meses. Ele ainda se envolveu com Jacqueline Onassis e casou-se com Barbara Marx, ex-esposa de Zeppo, dos irmãos Marx. Frank Sinatra também participou do governo de Ronald Reagan como conselheiro e amigo da esposa do presidente.
Apesar da vida tumultuada, Sinatra tornou-se um cantor com grande popularidade. Com interpretações seguras e contundentes, respiração imperceptível e boa presença de palco, o cantor desenvolveu estilo próprio, influenciando gerações.
Quando se reuniu com Tom Jobim para gravar alguns clássicos da Bossa Nova, causou constragimento ao maestro brasileiro: a voz de Frank, vigorosa, era audível do outro lado do vidro do estúdio de gravação. Jobim teve grande trabalho para que Sinatra ao menos diminuísse o volume para não destoar tanto do estilo do ritmo.
Frank Sinatra enfrentou o ostracismo nos anos 90, mas deve voltar à tona. Mesmo morto, o cantor ainda tem sucesso garantido com a série de relançamentos, coletâneas, biografias e homenagens que devem aparecer. Amigos falarão do astro com intimidade, ex-amantes levantarão a voz para defendê-lo ou criticá-lo. Sinatra voltará ao sucesso no final da década provocando controvérsia, mas o oba-oba deve ao menos resgatar algumas de suas melhores interpretações.AGENDA
• A direção do Filo convida para a abertura da exposião ‘‘Olhares’’, do fotógrafo e pioneiro londrinense Haruo Ohara. Dia 19, às 18 horas, na Casa de Cultura.
• Adriana Zenere e Daniel Grade casam-se, hoje, às 20h30, na Igreja Santo Antonio, em Cascavel. São filhos de Rozeli e Maurício Zenere, e de Helena e Daniel Carvalho Grade. A recepção acontece na sede da Associação Banco do Brasil.

mockup