São Paulo, 18 (AE) - A primeira vez ninguém esquece. Quem nunca tinha assistido antes a um filme do português João César Monteiro tem a impressão de que vê uma completa novidade, para a qual não estava preparado, assim como ninguém está preparado para uma grande paixão ou uma revolução, na frase de Paulo Emílio Sales Gomes. Foi assim quando ele aportou por aqui, três anos atrás, com "A Comédia de Deus", com seu erotismo exótico e desconcertante. A continuação desse filme, programada para amanhã (19) pela mostra, "As Bodas de Deus" (às 23 horas no Maksoud Plaza), já não surpreende tanto. E isso porque o olhar crítico já se acomodou, de certa forma, à inventividade de Monteiro.
Se o fator surpresa já não conta tanto, sempre é agradável constatar que o diretor continua exercitando seu estilo iconoclasta, blasfemo, provocador. Ele mesmo interpreta o personagem João de Deus, que no filme anterior havia caído em desgraça quando descobrem a sua mágica receita de sorvetes: um extrato de pêlos pubianos de lindas donzelas. Em "As Bodas de Deus", ele é visto nos primeiros minutos do filme, vestindo uma camisa da seleção brasileira (a de Ronaldo, eterno titular, pelo menos enquanto o patrocinador permanecer o mesmo) e recebendo a visita de um anjo da anunciação. O enviado de Deus lhe entrega uma maleta recheada de dólares. A partir de então, o herói se transforma em refinado barão libertino.
Não há propriamente um enredo nos filmes de Monteiro. Pelo menos no sentido clássico do termo, com sua exposição de motivos, desenvolvimento, conflitos e resolução. Ele trabalha com idéias, com quadros que se movimentam, com teses que se desenvolvem. E, mais nesse filme que no anterior, com uma impressionante parafernália de referências cultas. A todo instante, a crueza das cenas é temperada pela evocação a Dante, Mallarmé, Proust, Pessoa, como se Monteiro precisasse frisar que é um hedonista, sim, mas nunca no sentido estrito da sexualidade. Há nele todo um exercício de savoir-faire essencial
das boas maneiras à mesa à escatologia na cama. Do refinamento para abrir e servir um bom vinho à surpresa sórdida de um verso de Bocage deslocado do seu contexto.
Monteiro tem vocação de demolidor. O que pensa da sociedade em que vive, da hipocrisia das relações humanas, da deterioração da convivência, está bem explícito em seus filmes. Sua maneira de expressar esse desencanto de base é juntar a obscenidade a um sentido lírico da imagem. Como se buscasse aproximar o sagrado e o profano para contestar e corroer tanto um como outro. Inútil dizer quanto esse procedimento crítico deve ao surrealismo em geral e a Buñuel em particular.

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