As boas novas de Caetano
PUBLICAÇÃO
domingo, 24 de março de 2002
Agência Estado 
Rio de Janeiro No camarim do Teatro Castro Alves, em Salvador, Caetano Veloso se prepara para o bis. Ao fundo, ouve-se a platéia cantar Parabéns para Você. É a noite do dia 6 de agosto de 2001, véspera do aniversário do cantor e compositor baiano. Enquanto repassa a lista das músicas ainda por tocar, Caetano recebe a notícia: Jorge Amado morreu, lhe diz a mulher, Paula Lavigne. Corta. Surgem no mesmo palco, já no dia seguinte, Caetano e sua banda. Em homenagem ao escritor, executam Milagres do Povo. Ele (Amado) é um homem que foi tão feliz e soube expressar tão bem a felicidade dele que, mesmo chorando, a gente só pode comemorar, diz o cantor para o público. A cena, emocionante, está entre os extras trazidos pelo DVD Noites do Norte ao Vivo, lançamento da Universal Music. As gravações foram feitas durante apresentações em São Paulo e na Bahia, sob direção de Carlos Nader e Carlos Manga Júnior.
O show, que já rodou o Brasil, será apresentado ao mundo no segundo semestre. A Europa poderá assisti-lo em junho e julho. Em setembro, é a vez da turnê norte-americana. Ou estadunidense. Nem sei como chamar. Esse país (EUA) não tem nome, brincou Caetano, que recebeu platina pela vendagem de seu DVD anterior, Prenda Minha. Foram 70 mil cópias. Também no segundo semestre deve se apresentar com a irmã Maria Bethânia, Gal Costa e Gilberto Gil, num revival dos Doces Bárbaros. Mas sem turnê.
Para breve, anuncia novo disco, uma parceria com o escritor, compositor e cantor Jorge Mautner. Estamos produzindo um repertório. Haverá músicas novas, mas quero gravar coisas dele, o que nunca fiz. Maracatu Atômico é um sonho que todo mundo deveria ter. É irresistível, afirma, para em seguida elogiar a versão dos pernambucanos Chico Science e Nação Zumbi. É maravilhoso que tenham feito. É maracatu mesmo. As gravações podem começar nesta semana.
Caetano falou também de sua vontade de fazer um disco com músicas carnavalescas da Bahia, uma espécie de antologia do que se produziu a partir dos anos 60 até hoje. A lista é variada: Moraes Moreira, Banda Reflexus, Timbalada, Carlinhos Brown, Netinho, Luiz Caldas. Banda Eva com Ivete (Sangalo), Ivete sem Banda Eva. Todo esse mundo extremamente rico. Um grande e denso repertório carnavalesco à altura da grande tradição brasileira, uma demonstração de saúde cultural enorme, diz Caetano, sem poupar a crítica especializada pelo que considera má vontade com o universo do axé.
Hoje há um abismo entre a minha vontade e a má vontade geral da crítica em relação ao axé. Não tenho palavras para preencher esse abismo. E por que o autor de Atrás do Trio Elétrico não produz mais para o carnaval? O carnaval foi se transformando e esse pessoal, como o Carlinhos Brown, sabe fazer melhor. Não me senti necessário nem competente, responde, humilde.


