As aventuras do Dr. Gari
Há alguns dias, ganhou manchetes um concurso para gari no Rio de Janeiro. O extraordinário foi o fato de 22 inscritos terem se declarado mestres e outros 45, doutores.
Para completar a situação inusitada, o processo seletivo não inclui testes cognitivos, apenas provas de resistência física. Quem já frequentou nossas academias (não as de ginástica!) sabe bem que mestres e doutores não costumam primar pelo corpinho atlético. Assim sendo, é bem capaz de que, mesmo com tantos anos de estudo, falhem na ambição desesperada de se tornarem garis.
Deve-se fazer a ressalva de que, como os dados vieram de fichas de inscrição que não exigiam comprovante de títulos, muita gente atribui o fenômeno a erros na hora do preenchimento, ou a simples trote, ou a sei lá o quê - simplesmente se recusando a acreditar na possibilidade de mestres e doutores disputando um salário de R$ 486,10, com alguns (poucos) adicionais.
Seja como for, é um fato que incita a reflexão sobre o tão sofrido sistema educacional de nosso País. Também é divertido especular sobre o convívio de um Dr. Gari, recém-aprovado, com colegas mais antigos na profissão.
Imaginem o veterano tentando enturmar o novato:
- Rapaz, que goleada essa do Palmeiras, hein? Pra que time cê torce?
- Observo com severas restrições essa entrega frívola, de paixão desarrazoada, a um vício esportivo que sublima frustrações e embota a consciência social da nação. Perde-se tempo com futebol para não haver chance de se refletir sobre as mazelas...
- Ô, Zé Mazela! Acorda que o saco de lixo abriu, tá cego?, interfere um terceiro, repleto de consciência social.
Também seria interessante observar o momento em que o gari mais velho, cansado da lida ao fim da jornada de trabalho, tenta desabafar para seu companheiro.
- Deus do céu, hoje o negócio tá brabo... E agora ainda começa a chover, só falta cair um raio na minha cabeça!
- Tecnicamente, meu caro, os raios não caem, eles sobem, por um desequilíbrio entre as cargas positivas dispersas na base da nuvem e os elétrons espalhados na Terra. São os elétrons que fluem, procurando o caminho de menor resistência elétrica. Como o clarão é mais alto em cima, a impressão que se tem...
- Acho que eu ouvi minha avó me chamando, tenho de ir, até mais.
E o que dizer do gostoso momento em que se combina uma reunião de amigos para o fim de semana?
- Beleza, Fonseca. Então amanhã vamos no Pedrinho, pro churrasco...
- Permita-me corrigir, interrompe o Dr. Gari, mas ''vamos'' é uma conjugação do presente do indicativo; já que estão falando de amanhã, o correto seria usar ''iremos''. Sem falar da preposição...
- Tanto faz ''vamos'', ''iremos'', porque você não tá convidado de qualquer jeito. Cê é muito chato, doutor.
- Tudo bem. Tenho mesmo de ficar em casa para reler o sétimo tomo do ''Em Busca do Tempo Perdido''. No original, claro.
- Olha, espero que encontre esse tempo perdido e traga pra gente na segunda-feira. Sem falta.
André Simões é jornalista em Londrina





