Elas são figuras raras dentro da literatura brasileira contemporânea. Personagens praticamente inexistentes nos romances, as donas de casa parecem completamente invisíveis nas obras de ficção. Aos olhos dos escritores, a monotonia das mulheres do lar não tem condições de render boas histórias.
A escritora pernambucana Martha Batalha percebeu essa invisibilidade das donas de casa na literatura brasileira e resolveu inverter a situação: revelar a própria invisibilidade das mulheres nomeadas "do lar". Colocou a mão na massa e criou seu primeiro romance, "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão".
Enviou os originais da obra para um punhado de editoras e nenhuma aceitou publicar o livro. Então fez aquilo que muitos jovens escritores brasileiros estão colocando em prática: traduzir a obra para a língua inglesa e tentar publicá-la fora do país.
O fato é que os direitos de publicação de "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão" foram comprados mundo afora por dez editoras das mais variadas línguas. Também foram comprados os direitos para transformar o romance em filme. Agora o livro ganha sua primeira edição brasileira lançado pela mesma editora que se recusou a publicá-lo no passado, a Companhia das Letras.
"A Vida Invisível de Eurídice Gusmão" narra a história de duas irmãs, Eurídice e Guida, que vivem com a família na Tijuca, bairro suburbano da cidade do Rio de Janeiro. As duas precisam enfrentar uma coleção de dificuldades por serem mulheres num mundo profundamente machista. A trajetória delas é retratada ao longo das décadas e 1940, 1950 e meados de 1960.
As irmãs são educadas nas prendas do lar para encontrarem um bom marido com um bom emprego. Guida, a mais velha, logo se enche dessa ladainha e foge de casa com o namorado. Eurídice, a mais nova, diante do desespero dos pais após a fuga da irmã, resolve ser uma boa moça casando-se de véu e grinalda com um funcionário do Banco do Brasil.
Na noite de núpcias, Eurídice descobre que sua de dedicação ao marido não será fácil. Pelo fato de não ter sangrado na primeira relação, o esposo acredita que não se casou com uma virgem, mas com uma vagabunda. Logo o marido percebe que a vagabunda cozinha bem, lava e passa bem as roupas, mantém a casa sempre limpa, cuida bem dos filhos e, enfim, resolve não devolver a moça e aceitá-la como esposa.
Eurídice se ajusta à vida de dona de casa com dedicação. E quando começa a ter um tempo vago, resolve fazer um livro com as receitas de pratos doces e salgados que cria na cozinha. Mas o marido logo corta suas asinhas ao afirmar categoricamente que ninguém se interessará por "um livro escrito por uma dona de casa".
Ela então abandona a culinária contratando uma empregada doméstica e passa a se interessar por corte e costura. Começa a copiar os modelos das revistas e depois a desenvolver seus próprios modelos. Compra uma máquina de costura e começa a fazer vestidos disputados pelas vizinhas. E novamente o marido corta suas asinhas e exige que ela apenas se dedique às tarefas do lar. Nada de costurar para fora.
Condenada à inviabilidade enquanto mulher, Eurídice aceita sua condição e segue em frente em nome da família, do marido e dos filhos. A irmã Guida, abandonada pelo namorado com um filho na barriga e renegada pelo pai, igualmente aceita sua condição e segue em frente procurando fundar uma nova família.
Uma história que poderia ter todos os elementos de uma tragédia, nas mãos de Martha Batalha ganha contornos de humor e ironia de maneira simples e bem colocada. A própria escritora defende a tese de que a literatura brasileira precisa ser agradável, não puramente um exercício de linguagem. Para ela, o Brasil precisa de uma literatura em que os leitores se reconheçam, sintam prazer na leitura. Em "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão" essa tese é colocada em prática de maneira bem resolvida.
A história das duas personagens lembra a história de muitas mulheres que viveram na invisibilidade e ainda estão por aí tentando respirar ar fresco. Sejam esposas, mães, avós ou bisavós.

Serviço:
"A Vida Invisível de Eurídice Gusmão"
Autor – Martha Batalha
Editora – Companhia das Letras
Páginas – 194
Quanto – R$ 39,90 e R$ 27,90 (e-book)

Sozinha na cama, o corpo escondido sob o cobertor, Eurídice chorava baixinho pelos "vagabundas" que ouviu, pelos "vagabundas" que a rua inteira ouviu. E porque tinha doído, primeiro entre as pernas e depois no coração. Nas semanas seguintes a coisa acalmou, e Antenor achou que não precisava devolver a mulher. Ela sabia desaparecer com os pedaços de cebolas, lavava e passava muito bem, falava pouco e tinha um traseiro bonito. Além do mais, o incidente da noite de núpcias serviu para deixá-lo mais alto, fazendo com que precisasse baixar a cabeça para se dirigir à esposa. Lá de baixo Eurídice aceitava. Ela sempre achou que não valia muito. Ninguém vale muito quando diz ao moço do censo que no campo profissão ele deve escrever as palavras "Do lar". Cecília veio ao mundo nove meses e dois dias depois das bodas. Era uma bebê risonha e gordinha, recebida com festa pela família, que repetia: "É linda!" Afonso veio ao mundo no ano seguinte. Era uma bebê risonho e gordinho, recebido com festa pela família, que repetia: "É homem!" Responsável pelo aumento de cem por cento do núcleo em menos de dois anos, Eurídice achou que era hora de se aposentar da parte física de seus deveres matrimoniais. Tentou explicar a decisão para Antenor, através de umas indisposições que passou a ter, nas horas soltas das manhãs de sábado e naqueles momentos escuros, depois das nove da noite. Mas Antenor não queria saber de não me toques. Ele era um homem de hábitos e de rotina, como aquela que envolvia achegar-se à camisola da mulher e afundar o nariz no macio do pescoço branco. Eurídice então se fez ouvir de outras formas. Ganhou um monte de quilos que falavam por si, e gritavam para Antenor se afastar. (Fragmento de "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão", de Martha Batalha)
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