As asas das mulheres invisíveis
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 14 de junho de 2016
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha2 
Elas são figuras raras dentro da literatura brasileira contemporânea. Personagens praticamente inexistentes nos romances, as donas de casa parecem completamente invisíveis nas obras de ficção. Aos olhos dos escritores, a monotonia das mulheres do lar não tem condições de render boas histórias.
A escritora pernambucana Martha Batalha percebeu essa invisibilidade das donas de casa na literatura brasileira e resolveu inverter a situação: revelar a própria invisibilidade das mulheres nomeadas "do lar". Colocou a mão na massa e criou seu primeiro romance, "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão".
Enviou os originais da obra para um punhado de editoras e nenhuma aceitou publicar o livro. Então fez aquilo que muitos jovens escritores brasileiros estão colocando em prática: traduzir a obra para a língua inglesa e tentar publicá-la fora do país.
O fato é que os direitos de publicação de "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão" foram comprados mundo afora por dez editoras das mais variadas línguas. Também foram comprados os direitos para transformar o romance em filme. Agora o livro ganha sua primeira edição brasileira lançado pela mesma editora que se recusou a publicá-lo no passado, a Companhia das Letras.
"A Vida Invisível de Eurídice Gusmão" narra a história de duas irmãs, Eurídice e Guida, que vivem com a família na Tijuca, bairro suburbano da cidade do Rio de Janeiro. As duas precisam enfrentar uma coleção de dificuldades por serem mulheres num mundo profundamente machista. A trajetória delas é retratada ao longo das décadas e 1940, 1950 e meados de 1960.
As irmãs são educadas nas prendas do lar para encontrarem um bom marido com um bom emprego. Guida, a mais velha, logo se enche dessa ladainha e foge de casa com o namorado. Eurídice, a mais nova, diante do desespero dos pais após a fuga da irmã, resolve ser uma boa moça casando-se de véu e grinalda com um funcionário do Banco do Brasil.
Na noite de núpcias, Eurídice descobre que sua de dedicação ao marido não será fácil. Pelo fato de não ter sangrado na primeira relação, o esposo acredita que não se casou com uma virgem, mas com uma vagabunda. Logo o marido percebe que a vagabunda cozinha bem, lava e passa bem as roupas, mantém a casa sempre limpa, cuida bem dos filhos e, enfim, resolve não devolver a moça e aceitá-la como esposa.
Eurídice se ajusta à vida de dona de casa com dedicação. E quando começa a ter um tempo vago, resolve fazer um livro com as receitas de pratos doces e salgados que cria na cozinha. Mas o marido logo corta suas asinhas ao afirmar categoricamente que ninguém se interessará por "um livro escrito por uma dona de casa".
Ela então abandona a culinária contratando uma empregada doméstica e passa a se interessar por corte e costura. Começa a copiar os modelos das revistas e depois a desenvolver seus próprios modelos. Compra uma máquina de costura e começa a fazer vestidos disputados pelas vizinhas. E novamente o marido corta suas asinhas e exige que ela apenas se dedique às tarefas do lar. Nada de costurar para fora.
Condenada à inviabilidade enquanto mulher, Eurídice aceita sua condição e segue em frente em nome da família, do marido e dos filhos. A irmã Guida, abandonada pelo namorado com um filho na barriga e renegada pelo pai, igualmente aceita sua condição e segue em frente procurando fundar uma nova família.
Uma história que poderia ter todos os elementos de uma tragédia, nas mãos de Martha Batalha ganha contornos de humor e ironia de maneira simples e bem colocada. A própria escritora defende a tese de que a literatura brasileira precisa ser agradável, não puramente um exercício de linguagem. Para ela, o Brasil precisa de uma literatura em que os leitores se reconheçam, sintam prazer na leitura. Em "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão" essa tese é colocada em prática de maneira bem resolvida.
A história das duas personagens lembra a história de muitas mulheres que viveram na invisibilidade e ainda estão por aí tentando respirar ar fresco. Sejam esposas, mães, avós ou bisavós.
Serviço:
"A Vida Invisível de Eurídice Gusmão"
Autor Martha Batalha
Editora Companhia das Letras
Páginas 194
Quanto R$ 39,90 e R$ 27,90 (e-book)


