Quando estreou no Brasil em 2014 com o título genérico de “Out of Control/John Wick – De Volta ao Jogo”, ninguém apostava que aquele momento era o princípio de uma das sagas mais lucrativas da última década. Aquele começo meio tímido e obscuro não foi obstáculo para que a história do ex-assassino forçado à voltar para vingar a morte de seu cão assassinado continuasse seguindo os caminhos habituais de todas as fórmulas de sucesso da Hollywood contemporânea. Outros filmes – neste caso, mais três – expandiram o universo inicial deliberadamente usando as ferramentas que o tornaram famoso.

A série de filmes "John Wick", começou a se levar muito a sério, dedicando cada vez mais boa parte de seus filmes subsequentes a nutrir sua própria mitologia por meio de discursos pomposos sobre rituais, códigos e regras entre assassinos. Portanto, é uma boa notícia que este spin-off, estrelado por uma deslumbrante Ana de Armas como uma assassina determinada a vingar a morte de seu pai, seja mais engraçado e mais consciente de sua própria insensatez do que a saga original já foi em muito tempo. Pelo menos, depois de deixar para trás sua primeira metade insuportável.

"Bailarina" foi inicialmente dirigido por Len Wiseman — anteriormente responsável por muitas outras fantasias de ação, todas medíocres — e depois retrabalhado com cenas adicionais do criador de "John Wick," Chad Stahelski. Não se sabe quais partes da resultado final são de responsabilidade de cada um, mas a verdade é que suas alusões mais diretas à saga original no enredo — como as aparições do próprio Wick em tela — não demonstram ter mais razão de ser do que lembrar o ilustre parentesco do filme.

“Bailarina” é sempre um fac-simile de John Wick , com ele ou sem ele em cena. Enquanto o filme esbanja estilo e nunca perde a vontade de criar momentos tão ridículos quanto olvidáveis, segue desnorteado em busca de personalidade própria. Seus momentos de violência também oferecem as doses de excesso e absurdo exigidas da obra de Wick. Mas pós problemas estão lá, manifestados em falhas como a câmera trêmula ou uma edição mais fragmentada do que o necessário.

ANA DE ARMAS

A interpretação de Ana de Armas oferece umas tantas coreografias (não como bailarina, certamente) para demonstrar sua perícia fisica em cenas mais arriscadas, que se dividem entre combates corpo a corpo e o manejo de armamentos letais de todo tipo (granadas, pistolas, metralhadoras e lança-chamas, etc) ; mas o roteiro somente a coloca como estereótipo de máquina de matar, e a química da atriz com Keanu Reeves é quase inexistente, sendo que a presença dele surge como pretensão forçada para garantir a ligação do filme com a franquia.

Fica a saudade daquela saborosa sequência de ação que Ana viveu ao lado do 007 Daniel Craig em “Sem Tempo Para Morrer”, aquele sim, um pas de deux de alto calibre cinematografico.. E se for para repetir o papel de “Bailarina”, que a produção visite a riquíssima galeria de peças e fuja da obviedade tchaikovsquiana de “O Lago do Cisne”.

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