As alquimias de HERMETO
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terça-feira, 29 de novembro de 2005
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
O alquimista dos sons, Hermeto Pascoal, chega hoje à cidade para abrir o Londrina Jazz Festival. A boa notícia: o show é gratuito, ou melhor, a entrada é 1 kg de alimento não perecível. A má notícia: os ingressos estão esgotados desde a última sexta-feira. A apresentação está prevista para às 21 horas, no palco do Teatro Ouro Verde, com abertura do Londrina Jazz Trio.
No ano passado, Hermeto estava escalado para ''fechar'' a programação tocando ao ar livre no Anfiteatro do Zerão. Uma chuva de última hora, porém, melou o show provocando seu cancelamento. A cidade virou referência afetiva para o multiinstrumentista alagoano desde que, há três anos, comandou um workshop no campus da UEL e ali conheceu sua atual mulher Aline Morena, uma cantora lírica de 26 anos nascida em Erexim (RS).
Juntos desde então, mudaram-se do Rio de Janeiro para Curitiba, onde gravaram um CD e um DVD independentes. O material está em fase de prensagem com previsão de lançamento para dezembro. No palco, Hermeto será acompanhado por sua banda formada por Itiberê Zwarg (contrabaixo), Márcio Bahia (bateria), Fábio Pascoal (percussão), Vinícius Dorin (sax e flauta) e André Marques (piano).
No show, executará peças instrumentais de sua discografia, além de composições inéditas. Mas o repertório, como é de praxe em sua carreira, obedece menos a roteiros previamente estabelecidos do que aos improvisos que favorecem a liberdade criativa dos músicos. Aclamado no exterior, já tocou em diversos palcos do mundo com os músicos mais respeitáveis do planeta. Autodidata, fundiou o erudito ao popular criando o que costuma chamar de ''música universal''.
Experimentalista sem pose, já incorporou sons de objetos e animais às composições extraindo musicalidade de porcos, galinhas, garrafas, chaleiras, máquinas de costura, baldes, molas de caminhão, tamancos e serrotes. Durante as gravações do novo disco, levou uma piscina para dentro do estúdio. A seguir, confira trechos da entrevista que ele concedeu ontem por telefone.
No ano passado, o show não pode ser realizado por causa da chuva. Desta vez, a apresentação será num teatro. Você já soube que os ingressos estão esgotados desde sexta-feira?
Não é falta de modéstia não, mas é sempre assim em qualquer lugar do mundo. O pessoal gosta da gente.
De lá para cá, você fez alguma turnê pelo exterior?
Fizemos duas turnês pela Europa. Na primeira, fizemos 20 e tantos shows na França e em outros países. Na segunda, tocamos três dias em Portugal.
Você conheceu sua mulher (a cantora lírica gaúcha Aline Morena) há três anos durante um workshop no campus da Unversidade Estadual de Londrina. Ela vai participar do show de hoje?
Ela está rouca, com problemas na garganta. Não sei se estará recuperada a tempo, mas se estiver boa, ela vai subir no palco sim, porque ela é maluca. E aí vamos cantar uma música que fizemos juntos, eu a música e ela a letra. Chama-se 'Nós', e conta como nos conhecemos aí. Foi quando fizemos nosso primeiro som. Eu subi no palco e perguntei para a platéia: 'quem vai ser o primeiro a subir aqui? E ela apareceu com um monte de instrumentos e eu pensei que ela ia tocar percussão. Mas aí ela me pediu para cantar a música 'Montreaux', que fiz em homenagem ao festival de jazz da Suíça. No dia seguinte, fomos para Maringá e ela sacudiu a poeira.
Ela tem acompanhado você e sua banda?
Ela está sempre comigo. Terminamos de gravar um CD que vai se chamar 'Chimarrão com Rapadura Hermeto Pascoal e Aline Morena' e um DVD. Pretendemos lançá-los juntos neste Natal. Se a fábricar atrasar a prensagem do DVD, a gente lança só o CD. O disco ficou maravilhoso. A Aline tem formação de cantora lírica, mas canta outros estilos de música, até música gaúcha. Ela explora timbres graves, médios e agudos. Gravamos a 'Flauta Mágica', de Mozart, em cujo arranjo botei três pianos. Nessa música, a Aline começa cantando com cordas, depois recita a letra traduzida do alemão para o português. Ela arrasou. Fico até com medo do pessoal da Globo ouvir e querer convidá-la para ser atriz.
O que vocês gravaram para o DVD? Vai ter imagens de shows pelo mundo?
Ele vai trazer imagens da gravação do CD, que foi registrado ao vivo no estúdio, só que sem o público. Levamos uma piscina para dentro do estúdio. A Aline ficou batendo as águas com as mãos enquanto eu manipulava uma mangueira. Tem muitas surpresas ali.
É mais ou menos famosa a história envolvendo sua amizade com Miles Davis. O que há de verdade ou lenda no relato de que ele gravou duas músicas de sua autoria ''Capelinha (Little Church)'' e ''Nem um Talvez'' sem lhe dar créditos no álbum ''Live Evil''?
Eu tive uma amizade muito bonita com ele, uma coisa espiritual que Miles não tinha nem com seus músicos. Na época, por volta de 1971, eu morava em Nova York e fui assistir a um show dele. A gente se conheceu e ele me convidou a visitá-lo em sua casa. Fui lá e mostrei algumas músicas minhas. A gente improvisou e ele foi tirando as músicas. Naquele dia, ele me chamou de albino louco e o apelido ficou. Um dia, o Airto Moreira (percussionista brasileiro radicado desde os anos 70 nos Estados Unidos) me ligou e disse que o disco do Miles tinha saído com duas músicas minhas, mas sem trazer meu nome nos créditos. Eu não liguei muito, porque música é que nem passarinho. A gente faz e ela pode voar. E acho que foi esquecimento dele, porque ele era muito desligado. Ele se preocupava muito com as roupas, com o jeito de se vestir, mas era bem desligado na parte musical. Na casa dele, deixava os instrumentos largados, fora dos estojos. Ele era assim. O que aconteceu comigo aconteceu com outros músicos. O Herbie Hancock me disse que o Miles fizera a mesma coisa com uma música dele. Acho que o erro foi de quem estava em volta dele, tanto que a segunda edição do disco saiu com o meu nome. Depois, saiu outra tiragem sem os créditos. E agora, me informaram que vai sair mais uma edição, agora de novo com meu nome.
Vamos falar de outro músico famoso: Gilberto Gil. O que você está achando dele como ministro da Cultura?
Pelo que estou acompanhado ele não tem feito nada. É igual procurar sol em dia nublado. O Gil é inteligente e um grande músico, mas na prática sempre fez música brega, música sem preocupações harmônicas. É um comerciante da música. Não liga para a música universal.
O jornalista Roberto Torres anunciou, há tempos, que está escrevendo a sua biografia. Você sabe em que pé está o livro?
Essa biografia tá demorada. O autor sabe mais da minha vida do que eu próprio. Ele foi lá na minha terra, em Lagoa da Canoa (AL), e conversou com meus familiares e meu povo. Era para o livro ser lançado em junho desse ano, mas ainda não saiu.
Será que ele não foi adiado para o próximo ano, quando você faz o aniversário de 70 anos?
Seria bacana, seria um acontecimento, mesmo porque o pessoal está preparando uma festa para comemorar a data, em 22 de junho.
Serviço:
- Show de Hermeto Pascoal e Banda, com abertura do Londrina Jazz Trio. Hoje, às 20h30, no Teatro Ouro Verde (Rua Maranhão, 85). Os ingressos estão esgotados. Realização: MadameX Produções e Eventos. Patrocínio: Ministério da Cultura, Milenia Agrociencias e Prefeitura Municipal de Londrina (PROMIC). Mais informações: www.londrinajazzfestival.com.br


