AS ÁGUAS, segundo Manoel de Barros
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segunda-feira, 04 de junho de 2001
Ranulfo Pedreiro De Londrina 
As águas espalhadas do Pantanal são a infância de um rio que ainda não envelheceu. Pela ausência do peso do tempo, essas águas ainda não escavaram a terra criando margens opulentas, ensaiando correntezas, esculpindo o relevo. Ficam ali paradas e vão se transformando em peixes, em jacarés e em homens. Para o poeta Manoel de Barros, as águas do Pantanal transbordam para a alegria dos pássaros.
Em pleno Dia Mundial do Meio Ambiente, a Folha2 traz um texto inédito de Manoel de Barros, que será lançado sexta-feira em formato de livro pelo governo do Mato Grosso do Sul, em parceria com a Sanesul, companhia de águas do estado.
O livro contém um único poema, Águas, e ganhou 5 mil exemplares que serão distribuídos pela rede pública do estado. O material traz ilustrações de Edvaldo Jacinto Correia, de Londrina.
Considerado um dos mais importantes poetas brasileiros, Manoel de Barros vive entre sua casa em Campo Grande e uma fazenda a quatro horas de carro. Sua obra desenvolve um vínculo profundo com a natureza, da qual o autor não se dissocia: No meu morrer tem uma dor de árvore, escreveu.
Manoel de Barros é um caso de regionalismo transformado em universal pelo filtro da palavra. A visão de pantaneiro bugre, como ele mesmo se considera arraigado à cultura popular não contradiz o homem culto que busca os prazeres cotidianos, da vida simples. Com fama de recluso, Manoel de Barros não gosta é de bajulação. Prefere jogar conversa fora com amigos, entre um gole e outro de cachaça.
Uma de suas fontes é o ilógico, o absurdo que costuma frequentar a percepção infantil e que é abandonado com o desenvolver da razão. Ele costuma dizer que a infância é o lastro que acompanha toda uma vida, assim como os lugares onde a existência se arraiga.
Para Manoel de Barros, a razão atrapalha a poesia. Intuitivo, é capaz de formular frases desconcertantes como as coisas que não existem são mais bonitas, eu escrevo o rumor das palavras, o verbo tem que pegar delírio, não tem altura o silêncio das pedras ou sobre meu rosto vem dormir a noite. A tendência se reflete em temas como A Arte de Infantilizar Formigas, poema incluído em seu Livro Sobre Nada, e aparece com frequência em livros como Exercícios de Ser Criança e Para Encontrar o Azul Eu Uso Pássaros.
Na obra que será lançada, o poema Águas foi desmembrado para dialogar com as ilustrações. Nós fizemos uma parceria que resultou neste trabalho. Este é um poema inédito e específico, feito sob encomenda, voltado para a Semana do Meio Ambiente, explica o ilustrador Edvaldo Jacinto Correia. O material foi editado pelo jornalista Luiz Taques.
Manoel de Barros nasceu em 1916 em Cuiabá e cresceu em Corumbá. Apoiado pelo pai, foi estudar direito no Rio de Janeiro. Após a faculdade, viajou pelo Peru, Bolívia e passou um ano em Nova York, onde estudou cinema e pintura. Do pai ele herdou as terras que repartiu com os irmãos.
Manoel de Barros sofre o destino da maioria dos poetas nacionais: é reconhecido, mas pouco lido. Com uma situação financeira equilibrada, o poeta produz com ritmo biológico, sem olhar para o relógio. Também não ostenta os reconhecimentos que recebeu, prefere a simplicidade, uma opção que ganha respaldo na timidez explícita.
Águas é uma iniciativa que avança em diversas fronteiras. Além de ressaltar a importância literária de Manoel de Barros, tem ainda caráter educacional e ecológico, sem esquecer aspectos visuais. Uma idéia que poderia ser encampada nacionalmente.


