AS 1.001 FACES DO 'GAROTO BOMBRIL'
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de maio de 2000
Jotabê Medeiros Agência Estado 
Durante 22 anos ele encarnou mais de uma centena de personagens, da música ao cinema, dos quadrinhos à ficção política, do picadeiro ao Masp. O objetivo sempre foi difundir a marca de um fabricante de palha de aço para uso doméstico, mas há quem veja na sua atuação um grande comentário sociopolítico da vida brasileira. O sucesso do garoto Bombril, Carlinhos Moreno, é um caso raro que desperta até a atenção internacional. Recentemente, a TV francesa exibiu um documentário sobre o caso.
Agora, para sedimentar o êxito, sua agência publicitária lança Soy Contra - Capas de Revistas, um livro no qual são exibidas as metamorfoses desse Zelig da Praça Vilaboim. Desde 1997, ele encarnou 75 caricaturas só em contracapas de revistas. Ele chama a atenção, em primeiro lugar, pela longevidade. Garotos-propaganda chateiam em pouco tempo. Moreno - um ator de pouco sucesso no teatro - atualiza seu personagem, invocando ecos da realidade efêmera. Eterniza-se à custa do transitório, do passageiro. Como vendedor, Moreno provavelmente seria um fracasso. Ele (o personagem, claro) é um tipo meio abilolado que se dirige quase sempre de maneira hesitante à dona de casa, dizendo coisas sem fundamento. Mas a marca que representa nunca requereu muito esforço para ser ofertada ao consumidor, já que é praticamente sinônimo do produto que vende. Então, do que Moreno tenta convencer o público?
O ator às vezes se queixa de que as pessoas o param na rua esperando dele um comentário engraçado. Seu personagem é patético. Logo, tudo que ele encarna se torna automaticamente patético. Na verdade, a impressão é que esse Zelig quer fazer a gente rir ainda mais de coisas de notório histrionismo. Pitta e Nicéa já são risíveis sem muito esforço, assim como o ensandecido deputado Enéas Carneiro, líder político, a esfuziante Feiticeira, a sadomasô evangélica Tiazinha ou o par romântico infanto-juvenil Ronaldinho-Milene.
Comentados por Carlinhos Moreno, no entanto, parecem ganhar autenticidade como instant celebrities (só para lembrar outro bordão publicitário famoso). Quem não é nada, passa a ser um nada reconhecido socialmente - mesmo que seja como piada. O apresentador de TV não consegue emplacar como apresentador de TV. Mas, após ser bombrilzado, pode viver dos lucros que a chancela de personalidade pública possibilita no Brasil.
Mas não soa bem ser demasiado crítico em relação a um fenômeno tão simpático quanto o garoto Bombril. Suas qualidades parecem maiores que sua capacidade de embotamento da opinião pública. A esperteza em reconhecer imediatamente qual é o talk of the town, a fofoca da hora, é uma dessas qualidades. É a publicidade mostrando seu lado humano, condominial, paroquial, gente como a gente. E, em alguns casos, há eficiência quase jornalística no fenômeno.
Mais do que uma gelatinosa rede de intrigas de natureza política, o caso Pitta e Nicéa, por exemplo, surge como uma lavagem de louça suja conjugal em público. O slogan agora se adapta à realidade como uma luva. É claro: trata-se de um personagem atrelado a sua sina publicitária. É por isso, entre outras coisas, que o publicitário que o criou escreveu o prefácio utilizando oportunas 1.001 palavras.


