Durante 22 anos ele encarnou mais de uma centena de personagens, da música ao cinema, dos quadrinhos à ficção política, do picadeiro ao Masp. O objetivo sempre foi difundir a marca de um fabricante de palha de aço para uso doméstico, mas há quem veja na sua atuação um grande comentário sociopolítico da vida brasileira. O sucesso do garoto Bombril, Carlinhos Moreno, é um caso raro que desperta até a atenção internacional. Recentemente, a TV francesa exibiu um documentário sobre o caso.
Agora, para sedimentar o êxito, sua agência publicitária lança ‘‘Soy Contra - Capas de Revistas’’, um livro no qual são exibidas as metamorfoses desse Zelig da Praça Vilaboim. Desde 1997, ele encarnou 75 caricaturas só em contracapas de revistas. Ele chama a atenção, em primeiro lugar, pela longevidade. Garotos-propaganda chateiam em pouco tempo. Moreno - um ator de pouco sucesso no teatro - atualiza seu personagem, invocando ecos da realidade efêmera. Eterniza-se à custa do transitório, do passageiro. Como vendedor, Moreno provavelmente seria um fracasso. Ele (o personagem, claro) é um tipo meio abilolado que se dirige quase sempre de maneira hesitante à dona de casa, dizendo coisas sem fundamento. Mas a marca que representa nunca requereu muito esforço para ser ofertada ao consumidor, já que é praticamente sinônimo do produto que vende. Então, do que Moreno tenta convencer o público?
O ator às vezes se queixa de que as pessoas o param na rua esperando dele um comentário engraçado. Seu personagem é patético. Logo, tudo que ele encarna se torna automaticamente patético. Na verdade, a impressão é que esse Zelig quer fazer a gente rir ainda mais de coisas de notório histrionismo. Pitta e Nicéa já são risíveis sem muito esforço, assim como o ensandecido deputado Enéas Carneiro, líder político, a esfuziante Feiticeira, a sadomasô evangélica Tiazinha ou o par romântico infanto-juvenil Ronaldinho-Milene.
‘‘Comentados’’ por Carlinhos Moreno, no entanto, parecem ganhar autenticidade como instant celebrities (só para lembrar outro bordão publicitário famoso). Quem não é nada, passa a ser um nada reconhecido socialmente - mesmo que seja como piada. O apresentador de TV não consegue emplacar como apresentador de TV. Mas, após ser ‘‘bombrilzado’’, pode viver dos lucros que a chancela de ‘‘personalidade pública’’ possibilita no Brasil.
Mas não soa bem ser demasiado crítico em relação a um fenômeno tão simpático quanto o garoto Bombril. Suas qualidades parecem maiores que sua capacidade de embotamento da opinião pública. A ‘‘esperteza’’ em reconhecer imediatamente qual é o talk of the town, a fofoca da hora, é uma dessas qualidades. É a publicidade mostrando seu lado humano, condominial, paroquial, gente como a gente. E, em alguns casos, há eficiência quase jornalística no fenômeno.
Mais do que uma gelatinosa rede de intrigas de natureza política, o caso Pitta e Nicéa, por exemplo, surge como uma lavagem de louça suja conjugal em público. O slogan agora se adapta à realidade como uma luva. É claro: trata-se de um personagem atrelado a sua sina publicitária. É por isso, entre outras coisas, que o publicitário que o criou escreveu o prefácio utilizando oportunas 1.001 palavras.

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