Normalmente, acredita-se que grandes acontecimentos transformam a vida das pessoas. Apenas fatos surpreendentes seriam capazes de alterar a existência de homens e mulheres.

Han Kang: autora de 'A Vegetariana' mostra a violência que pode sofrer uma pessoa que simplesmente muda de hábitos
Han Kang: autora de 'A Vegetariana' mostra a violência que pode sofrer uma pessoa que simplesmente muda de hábitos | Foto: Jean Chung/Divulgação

A escritora sul-coreana Han Kang acredita no movimento contrário: são os pequenos acontecimentos que transformam a vida das pessoas. Em seu primeiro romance publicado no Brasil “A Vegetariana”, revela como um pequeno fato pode desencadear alterações monstruosas.

Lançado pela editora Todavia, a obra narra a história de Yeonghye, uma mulher completamente comum imersa num cotidiano totalmente comum. Um belo dia decide não comer mais carne. A decisão não é motivada por questões de saúde ou por questões filosóficas. Nada disso. Ela apenas acredita que ao se tornar vegetariana, deixará de ter sonhos perturbadores durante as madrugadas.

O drama é que esse pequeno gesto inofensivo transforma completamente sua vida. O primeiro impasse acontece com o marido que não entende sua decisão. O segundo impasse acontece com os pais, depois com os irmãos e demais parentes que se revoltam contra ela. O mundo todo se volta contra ela.

Ao mesmo tempo em que Yeonghye se distancia das carnes, também se distancia do mundo.

“A Vegetariana” é um romance sobre o processo de isolamento do indivíduo. Um isolamento que se aprofunda mais e mais até o indivíduo perder todos os laços com o mundo a caminho da loucura.

No processo de isolamento, a personagem sofre uma metamorfose bizarra: aos poucos se transforma numa planta, num vegetal. Deixa de se alimentar para viver e água e luz em busca de fotossíntese. Deliberadamente não quer mais fazer parte da espécie humana.

As semelhanças entre a literatura de Han Kang e a literatura do escritor tcheco Franz Kafka (1883 – 1924) são evidentes. A alienação em que Yeonghye mergulha, bem como a perseguição que sofre, pode ser encontrada em vários personagens criados por Kafka. A perspectiva da morte e da loucura também encontra eco nas imbecilidades da vida: “Tomou consciência de tudo naquela tarde de primavera, enquanto esperava o trem na plataforma de embarque, sentindo que a morte a alcançaria em questão de meses, acreditando que o sangue que escorria de seu corpo era a prova disso Foi nesse dia que percebeu que estava morta havia muito tempo. Que sua vida cansativa não passava de uma encenação ou uma fantasmagoria. A face da morte, que tinha se aproximado, colocando-se de pé bem a seu lado, lhe era familiar, como alguém perdido tempos atrás e que ela voltava a encontrar agora.”

Nascida em 1970, filha de um casal de escritores, Han Kang ficou mundialmente conhecida ao receber prêmio Man Booker International Prize de 2016 com “A Vegetariana”.

Fragmento:

Meu sogro pressionou a carne de porco agridoce contra a boca da minha mulher, que se agitava em sofrimento. Com seus dedos grossos, ele abriu os lábios dela, mas não conseguiu entreabrir os dentes fortemente cerrados. Cego de raiva, deu-lhe uma nova bofetada.

“Pai!”, gritou o irmão caçula, tentando impedir um novo golpe, embora continuasse a prender o braço da irmã.

Minha cunhada se jogou e segurou o pai pela cintura. Mas no momento em que a boca de minha esposa se abriu, meu sogro enfiou à força o pedaço de porco agridoce. Diante da investida, o irmão amenizou a força no braço e minha esposa reagiu, cuspindo o alimento. Um grupo animalesco explodiu de sua boca:

Me deixem em paz!”

Minha esposa então agachou-se; parecia que ia fugir pela entrada da casa, mas em vez disso deu meia-volta e pegou a faca de picar fruta que estava na mesa.

(Fragmento de “A Vegetariana”, de Han Kang)

Imagem ilustrativa da imagem Árvores em chamas
| Foto: Divulgação

Serviço:

“A Vegetariana”

Autor – Han Kang

Editora – Todavia

Tradução – Jae Hyung Woo

Páginas – 176

Quanto – R$ 49,90

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