Árvores da vida
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de outubro de 2009
Claudio Yuge<br>Equipe da Folha 
Quando era pequena, no Rio de Janeiro, a brincadeira predileta de Delza era sempre estar por perto de uma árvore. A proximidade com a natureza invadia seu imaginário, abria possibilidades, alegrava suas manhãs e tardes. Com o passar do tempo, a garota apaixonou-se pela arte. Em especial pela pintura. Em seguida pelo desenho e pela própria história da arte, pela fotografia e, enfim, pelos mosaicos. Quem visitar sua mais recente exposição, ''Pinturas para a Eternidade'', inevitavelmente vai notar como tudo isso em sua vida se resume em quadros únicos, construídos com milhares de pequenos pedaços de sua vida em forma de papéis coloridos.
''Sempre gostei muito de árvores, da natureza. Quando vejo uma árvore cortada fico muito chateada, porque as árvores são seres vivos. Pra mim é como se fossem pessoas'', diz Delza Faria Lima, com uma simplicidade difícil de ser notada em uma artista tão delicada. A maioria de seus quadros trazem imagens de árvores, com um nível impressionante de detalhamento, tanto nos formatos quanto nos efeitos de luz e sombra, no realismo do cenário e dos elementos ao redor.
Ex-funcionária pública, Delza começou a se interessar pela arte ainda na adolescência. No tempo livre, inscreveu-se em um curso de desenho. Depois passou para a pintura a óleo. Seguiu para a análise da figura humana, partiu para a pintura abstrata e não parou mais. Fez pelo menos mais dez cursos, entre eles um workshop de museus em Nova York. ''O de mosaico eu fiz há seis anos, no Museu Alfredo Andersen. Eu fiz um de fotografia também justamente para poder tirar as fotos para esses mosaicos que eu faço'', conta. A artista já realizou mais de 39 exposições, em Curitiba, Campo Largo, São José dos Pinhais, Rio de Janeiro e também em Lille, na França, onde suas obras foram reconhecidas pela própria Secretaria de Turismo da França.
Os mosaicos de Delza, ao invés de pedras, de vidro ou azulejos, são confeccionados a partir de minúsculos pedaços de papel. Um centímetro é algo imenso perto de cada fragmento, todos recortados de páginas de revistas ou papéis coloridos. ''Só de pegar na página da revista já sinto a textura e a gramatura, se é brilhante ou não, se dá pra usar ou não. Daí eu escolho e uso umas tesouras especiais, que não empresto pra ninguém'', já adianta a artista.
Depois disso, ela vai, com a ajuda de palitos de dente, manuseando os recortes em um desenho prévio feito com inspiração em uma foto. Cada pedacinho é meticulosamente depositado sobre cola branca e reforçado com fixador. Esse processo, de acordo com Delza, dura aproximadamente mais de um mês para cada quadro, com trabalho diário, que muitas vezes entra na madrugada.
O resultado são imagens que oferecem três leituras diferentes, de acordo com a distância: é possível enxergar uma foto, uma pintura e o mosaico, de pertinho. ''As pessoas se admiram e vão pertinho para ver, pensam que é um quadro de pintura ou uma foto. Daí elas notam que é um mosaico. Tem gente que põe o dedo para comprovar, mas disso eu não gosto'', reclama, sem perder o bom humor.
Muitas das árvores retratadas em seus mosaicos são quase que ''desintegradas'' das ruas de Curitiba, molécula por molécula, para se transformar em quadros perfeitos. A maioria das imagens saem da rua Desembargador Motta, no caminho feito por Delza para chegar ao Coral Curitibôcas, onde é também cantora. ''Mas gosto também das árvores que fiz na França, em Lille, onde minha filha mora. Também gosto muito de fortes, então fiz aquele de Salvador. Tem também aquele da Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que todo mundo adora'', enumera.
Delza, que já morou no Rio de Janeiro, em Brasília e Salvador e está há mais de 20 anos em Curitiba, deve ter em sua cabeça muitas outras imagens para seus próximos mosaicos de papel. ''Ah, mas demorei dois anos para fazer essa exposição, ainda não penso na outra porque é cansativo.'' Certo mesmo é que as árvores sempre estarão presentes. ''Ver a beleza de uma árvore é uma coisa que me emociona muito. É uma coisa muito bonita.''
Serviço
- Pinturas para a Eternidade, de Delza Faria Lima.
Quando - Até o dia 26 de outubro, com visitação de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h
Onde - Galeria de Artes do Sesc Centro (R. José Loureiro, 578), em Curitiba
Mais informações - (41) 3304-2222


