Artistas sob influências
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de outubro de 1998
Jackeline Seglin 
...Sei, porque me observo, que em mim estão muito das entonações, gestual e sentimento de muitos e muitos atores e atrizes que eu vi,populares ou clássicos, brasileiros ou estrangeiros. Que por sua vez viram outros atores e atrizes de épocas anteriores, que por sua vez foram influenciados por outros colegas de outros séculos. A citação da atriz Fernanda Montenegro confirma o que acontece na carreira de todo artista. A influência é uma palavra constante no currículo artístico e, quase sempre, torna-se uma chave no trabalho. Seja na música, no teatro, no cinema... toda forma de arte está repleta de influências.
Durante uma palestra, ainda na década de 80, Fernanda Montenegro disse que a nossa história é uma transferência viva e é essa transferência que nos alimenta e nos dignifica. O que sei é que, de alguma forma, muito de Apolônia Pinto, Lucília Peres, Alda Garrido, Dulcina, chegou até mim. E tenho claro que em 2083 alguma atriz estará revivendo algum pulsar meu ou de outra atriz contemporânea.
Muito antes disso, o trabalho da atriz já repercutiu na carreira de várias outras artistas. Um exemplo é a atriz londrinense Patrícia Selonk, atualmente radicada no Rio de Janeiro. Questionada sobre suas influências, ela logo sacou uma biografia de Fernanda Montenegro. Com certeza recebo influências o tempo todo. A Fernanda Montenegro acredita que existe uma genética teatral e eu acredito nisso também, observa.
Arquivo FolhaA bailarina londrinense Lu Favoreto cita o mestre do butô Kazuo Ohno como uma influência marcantePatrícia Selonk lembra que assim como ela, dificilmente outros artistas não recebem influências. Por isso digo que existe em nós, atores, um pouquinho de Fernanda Montenegro, de Cacilda Becker, admite. Para a atriz, não existe uma pessoa específica que a influencie. As pessoas que a gente viu fazendo sucesso e que hoje fazem sucesso... Tudo é passado para gente meio que por osmose, acredita. Ela lembra também que o ator Paulo Autran teve grande peso no trabalho da Armazém Cia. de Teatro, da qual faz parte.
Assim como no teatro, a música está repleta de pessoas que passam ou captam aquele toque pessoal. A estrela Ângela Maria admitiu inúmeras vezes ao longo de sua carreira o quanto foi influenciada por outra cantora: Dalva de Oliveira. Ângela Maria usou a marca registrada de Dalva de Oliveira, o famoso laririiii!!!!, e popularizou em canções que até hoje fazem sucesso. A Dalva deixou de fazer o lariri e eu peguei mesmo, disse Ângela, em uma de suas entrevistas à Folha. E da mesma forma, sei que fui referência para muitas cantoras, como Fafá de Belém, Elis Regina, Maria Bethânia. Sou referência assim como Dalva.
Aliás, todas as boas cantoras brasileiras tiveram um peso na carreira da cantora e compositora Neusa Pinheiro. A primeira grande cantora brasileira que eu ouvi e que mais me impressionou foi Ângela Maria. Ela foi minha primeira mestra e me ensinou muitas coisas, revela.
No entanto, Neusa Pinheiro diz que sempre ouviu todo tipo de música. Por isso digo que minha influência é universal. Comecei com a música brasileira por forte influência de meu pai, o músico J. Pinheiro. Ouvia muito Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues e Chiquinha Gonzaga, lembra.
Neusa Pinheiro relata que acompanhou vários movimentos musicais e passou a ouvir de tudo. Era música negra, da fase anterior à criação do jazz; rock-n-roll, música de raiz. E desde pequena ouço música caipira.
Em sua mais recente apresentação, semana passada, em São Paulo, Neusa Pinheiro diz ter vivido um reencontro, depois de muito tempo, com uma pessoa que marcou sua carreira: o compositor Arrigo Barnabé. Ele foi uma das poucas pessoas que entendeu minha maneira de cantar, o meu estilo, confessa.
Já as influências da bailarina e professora Lu Favoreto não estão somente na dança, mas também na literatura, na música e nas artes plásticas. Eu sinto que, dentro da nossa cultura, somos especialistas em misturas. Eu busco estar com estas influências. Na dança, Lu Favoreto cita três grandes nomes que influíram em seu trabalho: o mestre do butô, o japonês Kazuo Ohno; o balé Pina Bausch, e o grupo holandês Win Vander Keybus.
Na música, Elis Regina é o nome que aparece por causa da entrega da cantora em relação à arte. Nas artes plásticas posso citar Claude Monet e, na literatura, o escritor italiano Ítalo Calvino. A gente tem essa característica de se deixar influenciar e gerar uma coisa específica, nossa mesmo.
A londrinense Lu Favoreto mudou-se para São Paulo em 1984. Estar saindo de Londrina já tem a ver com estar buscando outras influências. Há quatro anos, a bailarina montou um centro de dança contemporânea e a companhia Nova Dança.
Já o projeto pessoal do jornalista Caio Julio Cesaro faz parte dos primeiros passos para uma possível carreira em cinema. Ele até participou da direção de um curta-metragem que concorreu este ano no Festival de Gramado. O trabalho de Caio Cesaro é calcado, segundo ele, numa mistura de influências. Ele conta que assiste de tudo e pinça um pouco de cada um. Hitchcock, por exemplo, é a narrativa. Já (Federico) Fellini trabalha com a questão dos sonhos e devaneios dos personagens. Orson Welles marca pela técnica e pela vanguarda, enquanto Quentin Tarantino é o ritmo. Caio Cesaro não deixa de citar o brasileiro Walter Sales e o seu Central do Brasil, filme que para ele virou um clássico.
Ator de teatro e televisão, o londrinense Adriano Garib hoje está no Rio de Janeiro, contratado pela Rede Globo e atuando em espetáculos teatrais. A expressão sofrer influência é bem precisa. Não é uma coisa que a gente escolhe. Ela nos toma de assalto, defende.
Entre os dramaturgos que servem de inspiração no seu trabalho, Adriano Garib cita Samuel Becket e William Shakespeare. São dramaturgos que me intrigam e fazem com que meu trabalho de ator seja reflexo disso, admite. Entre os encenadores, Adriano Garib classifica Antunes Filho como alguém que o provoca. A dinâmica de atuação que ele conseguiu criar junto aos grupos com que trabalhou, a leveza, o relaxamento, a postura de fluência orgânica da arte de atuar... Já o ator Paulo Autran chama a atenção de Adriano Garib pela postura profissional e pessoal. Minhas influências são mais masculinas. Sou fascinado por várias atrizes, mas os homens costumam me provocar mais.
As referências de Garib formam uma extensa lista, da qual fazem parte ainda James Joyce, Guimarães Rosa, Albert Camus, Beethoven, Bertold Brechet, Antonin Artaud, Jersey Grotowisky, Heiner Muller e Woody Allen.
A poesia, que tem na inspiração sua arma mais forte, também trabalha muito com as influências. O jornalista, poeta e tradutor Rodrigo Garcia Lopes lembra que na adolescência era influenciado por nomes como Ezra Pound, o poeta norte-americano que havia prometido a si mesmo que aos 30 anos seria o homem que mais saberia de poesia no planeta. No Brasil, foi muito importante o exemplo radical de Paulo Leminski, que além de exercer várias atividades simultaneamente, também dizia viver 24 horas para escrever poesia. Outros nomes importantes no aprendizado de Rodrigo Lopes foram os poetas E.E.Cummings, Jean Rimbaud e Antonin Artaud.
Atualmente, o poeta diz não identificar uma influência específica, mas alega que qualquer tema ou assunto podem despertá-lo por vários motivos: pode ser a obra de um filósofo como Wittgenstein ou as opiniões sobre o tempo, os ventos e o mar de um nativo daqui da praia onde moro, em Florianópolis, diz.
Para o artista plástico Fernando Augusto, a arte é um universo de relações, no qual o artista está sempre dialogando com outros artistas e com a tradição artística, para assim fundar o próprio conceito de arte. Verdadeiramente, uma obra de arte nunca é sozinha, está sempre numa linha que dialoga com outras obras. Esse diálogo é feito de infinitas maneiras, uma delas é o que chamamos de influência.
Fernando Augusto acredita, então, que é impossível o artista não ter influência. De certa forma, ele vai se influenciando na medida em que constrói o trabalho. A influência é uma coisa seletiva. É o artista quem seleciona por quem e no que ele quer ser influenciado, avalia.
O artista plástico já se deteve nos trabalhos do inglês Francis Bacon e do brasileiro Iberê Camargo. Depois veio o americano C.Y. Twombly, como também alguns artistas expressionistas e neo-expressionistas alemães. Atualmente, me interessam mais as questões que discutem a linguagem, revela, citando nomes como Susane Lang, M. Ponty, Aroldo de Campos e Décio Pignatari. A influência, sem dúvida, tem lugar reservado na criação artística.


