Arquivo FolhaBanda Iguaranoise: mudança para o Rio de Janeiro onde ‘‘as coisas acontecem’’ junto ao público e as gravadoras Na maioria das vezes a história começa como uma brincadeira, ganha forma e quando se percebe não há saída, a não ser fazer as malas e ganhar o mundo. Este processo se repete com vários londrinenses que se aventuram na vida artística. 1998 começa com muitas despedidas: da cantora e atriz Simone Mazzer (Chaminé Baton), da Banda Iguaranoise e do grupo de teatro ‘‘Armazém’’.
Antes deles, outros ganharam mundo: o ator Adriano Garib, a atriz Edna Aguiar, o ator Paulo Augusto, os músicos Marcos Nihaus e Bernardo Pelegrini, o ator Humberto Brevilheri, a atriz Geisa Costa, só para falar de alguns. Há bem mais tempo existiram outros, que hoje já ganharam nome como Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé.
A maioria concorda: Londrina foi a base, a escola necessária para fazer carreira. Adriano Garib chega a afirmar que o clima cultural da cidade mesclado com o provincianismo formam uma química perfeita que acaba dando tranquilidade ao ator para trabalhar. ‘‘Criamos uma escola que nos deu uma formação artística, intelectual e humana muito grande’’.
Arquivo FolhaSimone Mazzer: ‘‘Chega uma hora em que a sua cabeça começa a bater no teto’’
Por outro lado, as críticas são muitas: falta incentivo, política cultural, produtores, público e ainda há um certo provincianismo. Estas dificuldades impedem que o trabalho dos artistas continue se desenvolvendo na terra dos ‘‘pés-vermelhos’’.
‘‘Chega uma hora que sua cabeça começa a bater no teto. Daí não tem jeito tem que fazer as malas e ir embora’’, afirma a cantora e atriz Simone Mazzer, que está em São Paulo. Ela afirma que é muito difícil ir embora. ‘‘Adoro morar aqui. Mas chega a hora em que você já fez de tudo e para continuar crescendo tem que buscar novas experiências’’, argumenta.
Adriano Garib, que já está há alguns anos entre Rio de Janeiro e São Paulo, afirma que este destino é inevitável. ‘‘Esta é a única profissão em que se depende do eixo cultural’’. Segundo ele, é possível ter uma companhia em Londrina e fazer suas apresentações na região. ‘‘Você pode até conseguir apoio oficial’’, diz. ‘‘Mas São Paulo tem mais fundos para bancar o seu trabalho, tem mais público consumidor’’.
Público escasso Simone Mazzer salienta as dificuldades encontradas com relação ao público. Ela afirma que é impossível ser conhecido em Londrina, e conta que inúmeras vezes saiu em busca de patrocínio e as pessoas nem sabiam quem era ela. ‘‘Eu costumava dizer que não precisavam gostar do meu trabalho, mas tinham que me conhecer’’, afirma. ‘‘Afinal eu estava botando a minha cara para o público há muito tempo’’.
Arquivo FolhaAdriano Garib: ‘‘Para o artista, é impossível escapar do eixo Rio-São Paulo’’
Se a busca do reconhecimento profissional for a nível nacional, pior ainda, segundo a ex-vocalista da banda Chaminé Baton. ‘‘As pessoas reconhecem culturalmente, Rio de Janeiro, Curitiba e Porto Alegre’’, diz. ‘‘É ilusão pensar que Londrina é conhecida no país por sua movimentação cultural’’, complementa. Mas e os festivais? ‘‘No máximo as pessoas sabem da existência dos festivais, mas não sabem como são realizados e não assistem’’.
Simone Mazzer aponta também a falta de vontade política e a falta de público em Londrina como fatores que levam o artista a procurar outras praias. Segundo ela, trabalhar em Londrina de uma certa forma é mais fácil, ‘‘porque você mora próximo, vai a pé aos ensaios’’, os custos acabam sendo mais baixos, embora a falta de verba sempre seja um problema. ‘‘Mas existe o empecilho da falta de público’’, afirma. ‘‘Depois de um mês de estréia quem tinha que ver o espetáculo já viu, não volta e para trazer outras pessoas você depende da mídia, onde as inserções são muito caras’’.
Santo de casaAdriano Garib faz uma observação parecida. Segundo ele, o público se acomoda com o fato de as apresentações serem de grupos de Londrina. ‘‘É aquela história de que santo de casa não faz milagre’’, diz. ‘‘O público acredita que sempre haverá apresentações e então não há pressa para assistir’’- diz.
Garib afirma que este comportamento impossibilita o trabalho de muita gente, que acaba indo mostrar a sua arte para o Brasil e não só para a sua comunidade. A diretora do Festival Internacional de Londrina, do grupo de teatro Proteu e vice-reitora da UEL, Nitis Jacon, faz uma análise inversa. Segundo ela, ‘‘faltam espetáculos em cartaz com regularidade’’, por isso o público não cria o hábito de ir ao teatro, fora do circuito dos festivais.
Mas Nitis reconhece que fica difícil manter espetáculos sem a presença constante do público. Na análise da diretora do Proteu, que há três anos não tem uma montagem nova, Londrina vive um círculo vicioso: sem espetáculos não tem público e a falta de público dificulta o trabalho dos grupos de teatro.
Simone Mazzer aponta ainda mais uma caraterística do público londrinense. ‘‘Ele se cansa rápido’’, diz. ‘‘Uma, duas semanas de apresentação e o público já quer ver coisa nova. Não é assim, criar exige tempo. Não produzimos em série’’.
Por conta destas dificuldades, Simone Mazzer vai embora de Londrina sem muitas lágrimas. ‘‘Saio de Londrina chateada’’. Este ano ela vai continuar o seu trabalho com o Armazém, que também foi para o Rio de Janeiro, ao mesmo tempo que fica com o espetáculo ‘‘As Madamas’’ em São Paulo junto com Edna Aguiar e Yvette Mattos.
Mil e uma utilidades Falta público, falta vontade política, e falta um mercado que permita os artistas sobreviverem financeiramente mantendo o vínculo apenas com o meio artístico. Os grandes centros oferecem este mercado, que Londrina não tem. ‘‘Os atores fazem 500 coisas ao mesmo tempo’’. Esta é uma vantagem que não atraiu apenas Adriano Garib. Edna Aguiar
também se multiplica para sobreviver do que gosta: representar.
Ela está em São Paulo há sete anos. Depois de trabalhar com o grupo Delta em Londrina, que serviu de escola para muitos outros atores, ela foi para São Paulo. ‘‘Escolhi a cidade porque oferece um mercado mais amplo’’, diz.
A atriz dá aula de teatro, trabalha como aderecista e figurinista, faz comerciais, pontas em novelas. ‘‘Em São Paulo estes trabalhos surgem com mais facilidade, não é preciso ter outro vínculo, além do artístico’’, explica. Apesar das dificuldades enfrentadas em Londrina, Edna Aguiar reconhece que a cidade ‘‘tem pessoas que ainda têm coragem de fazer teatro’’. Ela refere-se à Funcart e à Escola Muncipal de Teatro.
A banda Iguaranoise também está onde ‘‘as coisas acontecem’’. Marcelo, um dos integrantes da banda, que agora está no Rio de Janeiro, diz que a saída de Londrina era inevitável. ‘‘Não tem gravadoras aqui’’, afirma. ‘‘Não quero ficar tocando em bares a vida toda’’.
O músico Marcos Nihaus (conhecido como Marquinhos Diet) sempre soube que ‘‘se um dia aparecesse uma oportunidade iria para o Rio de Janeiro’’. Mas ele acredita que não é necessário sair de Londrina, para continuar produzindo. ‘‘Com a informática você pode ficar em um ambiente que faça bem para o espírito e só fazer a negociação no Rio, por exemplo, sem precisar ir para lá.’’
Nitis Jacon também compartilha da opinião de que é possível continuar trabalhando em Londrina, embora admita que para quem quer viver profissionalmente de teatro, não há muita alternativa além do eixo Rio-São Paulo. Segundo ela, os integrantes do Proteu, embora tenham continuado em Londrina, não pararam de crescer e se aprimorar. ‘‘É possível evoluir profissionalmente em Londrina’’, conclui.

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