Ocupar um espaço público para defender uma idéia. Foi com esta proposta à tiracolo que o artista plástico e estudioso das artes, Rubens Pillegi Sá, entrou em ação. Ontem à tarde, Pillegi e a historiadora e professora de História da Arte da PUC do Rio, Cecília Cotrim, invadiram a praça Sete de Setembro em Londrina para chamar a atenção contra o esvaziamento dos símbolos artísticos, questão central e nevrálgica da arte contemporânea.
Para os artistas, que vestiram a estátua da Imaculada Conceição com uma máscara que estilizava a obra ‘‘O Grito’’ - quadro do pintor norueguês Advard Munch e um dos símbolos do expressionismo alemão - a idéia é mesmo causar estranheza em quem passa. ‘‘Estamos ocupando este espaço como qualquer cidadão e queremos despertar a atenção quanto aos símbolos que cultuamos. Uma obra religiosa, feita de bronze e granito, encravada em pleno centro da cidade, cercada de carros por todo os lados, como é o caso da imagem da Imaculada Conceição, já teve todo o seu sentido esvaziado. Quanto a obra de Munch, o que dizer, foi comprada em uma loja de fantasia’’, explica Pillegi.
Mas nem toda explicação foi capaz de convencer quem passava pela praça. A máscara foi retirada diversas vezes por populares que se revoltavam contra os artistas. ‘‘Este cara é do mal’’, acredita o auxiliar de escritório Reinaldo Roberto Guimarães. Quem também achou que era um ‘‘pecado’’ colocar uma máscara tão feia na santa foi Maria Aparecida Zanoti Ruazi, que há 22 anos possui uma banca de jornais e revistas na praça. ‘‘Estou aqui há muito tempo e nunca vi ninguém colocar máscara na santa. Estão dizendo que colocaram a máscara para mostrar que a santa está no lugar errado, e eu até concordo já que não tem segurança mesmo’’. Para José de Oliveira Rodrigues, que usa a praça todos os dias para ir e voltar do trabalho, colocar uma máscara na imagem da Imaculada Conceição não foi uma coisa tão chocante. ‘‘Pelo menos não estão usando a imagem como banheiro, o que é muito pior e acontece quase todos os dias. Basta dar uma olha na sujeira que fica no pedestal toda manhã. Isto é uma profanação muito pior’’, acredita Rodrigues.
A polêmica, que chegou a tomar rumos de uma grande discussão entre artistas e populares na praça, no entanto não assustou o mentor da ação, Pillegi acredita que este momento é propício para a estas discussões. ‘‘Quantas vezes passamos pela praça e vemos um mendigo dormindo ao pé da estátua? Esta imagem é também muito chocante e no entanto foi quase que absorvida totalmente por quem passa por aqui e não desperta, nem de perto, a ira que despertou a máscara’’, diz o artista, que também afirma ser católico. ‘‘Não queremos profanar ou desrespeitar a imagem da Imaculada Conceição, e sim discutirmos como as imagens deixam, ao longo dos anos, os significados originais e vão se vestindo com outros’’.
Para o Arcebispo de Londrina, Dom Albano Cavalim, a atitude não espelha a intenção de verdadeiros e consagrados artistas. ‘‘Artistas como Michelangeo, Rafael e Murilo sempre acreditaram que era uma verdadeiro privilégio retratar a figura perfeita da mulher que é a Mãe de Jesus. No mundo inteiro é assim e há várias praças e estátuas da Imaculada Conceição espalhadas pela Europa, mostrando que a cultura descobriu a importância da mãe de Jesus’’, explica Dom Albano. Para o religioso, a atitude dos artistas é uma falta de respeito com os devotos. ‘‘É preciso respeitar as imagens sacras, a própria constituição garante este direito. Qualquer criança brasileira ficaria ofendida se xingassem sua mãe, é o mesmo caso. É preciso bom senso quando o nome é da mãe de Jesus. Pode até ser que este assunto seja levado aos tribunais. Na verdade a verdadeira arte é bem diferente do que eles fizeram. Que Jesus perdoe esta ofensa à sua mãe’’.

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