ARTISTAS ESPECIAIS - Despertando para a dança
PUBLICAÇÃO
sábado, 21 de junho de 2003
Jackeline Seglin<br>Reportagem Local 
O sorriso indisfarçável no rosto entrega a ansiedade em poder mostrar o que eles prepararam com tanta dedicação. Arruma o som, ajeita o cenário, ajuda o companheiro, coloca o figurino. O espetáculo vai começar. Ao sinal da coreógrafa e professora Rosânia de Almeida, 14 integrantes do Grupo de Dança Despertar, da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Ibiporã, se preparam para mostrar um trecho da montagem Janelas da Mente no pátio do Centro Educacional João XXIII.
Com esse espetáculo, eles acabam de ser premiados no 5º Festival Nacional Nossa Arte, promovido pela Federação Nacional das Apaes e realizado na semana passada no Teatro Guaíra, em Curitiba. Formado por alunos de nove a 24 anos, o grupo recebeu o prêmio de primeiro lugar na categoria dança, concorrendo com mais 13 representantes de estados brasileiros.
Esta não é a estréia do grupo paranaense em premiações. Criado há oito anos, o Despertar ganha pela terceira vez a etapa nacional do Festival Nossa Arte (Vitória/ES em 1996 e São Paulo em 2001). Também já venceu as etapas estaduais de Jacarezinho (1997) e Toledo (2000). E para chegar à final nacional do Nossa Arte em 2003, sediada no Paraná, o Despertar passou pelas classificações nas etapas regional e estadual, ambas em 2002. Ainda no ano passado, foi indicado ao Prêmio Banco Mundial de Cidadania.
O Grupo Despertar foi criado na Apae de Ibiporã com o intuito de desenvolver um projeto educacional de qualidade e de resultados, promovendo as potencialidades, as habilidades e o desenvolvimento dos alunos. Trata-se de um projeto de inclusão social através da dança, comenta Rosânia de Almeida. Hoje a socialização é muito maior. É através da dança que eles estão se reintegrando à sociedade.
Além dos festivais da Apae, o Despertar vem participando de outros eventos que não são restritos aos alunos da educação especial. Nessas horas é que ampliam seu contato, conhecendo novas experiências e trocando informações.
Durante a semana, os alunos da Apae de Ibiporã participam pela manhã de atividades escolares e profissionalizantes e, à tarde, de aulas diárias de balé clássico e moderno, com duas horas de duração. O objetivo é trabalhar o desenvolvimento físico e mental deles, diz Rosânia, pedagoga e bailarina que trabalha na Apae há oito anos. Também estamos batalhando por um trabalho rumo à profissionalização, dentro dessa categoria de ensino especial. Eles já recebem cachês por apresentações, conta.
Quarto espetáculo do grupo, Janelas da Mente fala da inteligência e da capacidade do ser humano se comunicar. Na vida deles, essa vontade de se comunicar vem sendo adquirida através da dança. É como se a mente e a vida deles estivessem se abrindo através da arte.
Os alunos do Grupo Despertar são portadores de tipos diversos de necessidades especiais. Em cena, formam um único bloco de bailarinos que têm na dança uma importante ferramenta de expressão. O aluno Rubens Aleff Assad, de 9 anos, é o mais novo da turma e diz que quer mesmo é ser bailarino.
Caroline Rinaldi da Silva, 15, comenta que ao dançar sente a música. E isso é o que faz a diferença nessas aulas. Eu danço com o coração e não com o corpo, ressalta a aluna, há três anos no grupo. Para Diego Faria, 12, dançar faz bem e é gostoso soltar o corpo.
Todos eles afirmam que, na hora de dançar, nada é difícil. Basta dançar. É essa entrega que faz dos alunos da Apae bailarinos seguros no palco. Eles fazem uma dança que mexe. Com eles e com a platéia.
As mães são parte fundamental no trabalho. Algumas delas acompanham o processo como voluntárias da Apae. Luiza Rinaldi da Silva, mãe de Caroline, conta que a dança fez um bem enorme para a filha. Antes ela era uma menina isolada, rebelde e agressiva. Hoje o comportamento dela é maravilhoso. Ela é carinhosa e socialmente muito mais acessível. Luiza Rinaldi revela que a filha briga quando não pode ir à aula de dança. Ela nasceu para dançar. Só descobrimos isso com o grupo, que nos deu essa oportunidade, afirma.
O filho de Ercília Moura Rodrigues, Renan, de 12 anos, está no grupo Despertar desde os seis. Está sendo maravilhoso. Antes ele não gostava nem de ficar no meio dos outros coleguinhas. Com a dança, é outro menino. Interna e externamente, detalha Ercília, que também é voluntária da Apae.


