Os pais já haviam decidido chamar a filha caçula de Mary Gislene. Coube a Caetano Veloso convencer a família a fazer um sorteio no qual a sugestão dele foi vencedora e a irmã acabou ganhando o nome de Maria Bethânia. Todas as vezes em que a cantora baiana conta esse episódio familiar cai na gargalhada ao imaginar como teria sido seu destino artístico se a família a tivesse “presenteado” com o codinome adotado por uma artista de circo por quem um irmão mais velho se apaixonara durante a passagem da trupe pela cidade de Santo Amaro da Purificação.

Outros artistas não tiveram a mesma sorte da cantora baiana. Será que alguns astros do universo pop teriam tantos fãs se mantivessem os nomes que constam em seus registros de nascimento? Anitta, que foi batizada como Larissa de Macedo Machado, optou por adotar seu nome artístico inspirada na minissérie homônima exibida pela Rede Globo e que tinha como protagonista uma ninfeta fatal.

Cazuza foi batizado como Agenor de Miranda Araújo Neto, coisa que pouca gente sabe
Cazuza foi batizado como Agenor de Miranda Araújo Neto, coisa que pouca gente sabe | Foto: Masao Goto Filho/ Folhapress

Muitos ouvintes de música sertaneja podem nunca devem ter ouvido falar em Nivaldo Batista Lima, Emival Eterno da Costa e Mirosmar José de Camargo. Mas com certeza já cantaram vários hits gravados por Gusttavo Lima, Leonardo e Zezé Di Camargo, respectivamente. No mundo do rock, seria estranho ouvir o anúncio de show de Agenor de Miranda Araújo Neto (Cazuza), Gordon Matthew Thomas Sumner (Sting) e Farrokh Bulsara (Freddie Mercury). Também causaria estranheza chamar a cantora de Cher de Cherilyn Sarkisian, Elvis Presley de Elvis Aaron Presley, Elvis Costello de Declan Patrick Macmanus e Stevie Wonder de Stevland Hardaway Judkins.

A mudança de nome não é exclusividade do universo musical. É difícil de imaginar nos créditos de filmes e novelas o nome de Ecleidira Maria Fonseca Paes ao invés de simplesmente Dira Paes, ou de Arlette Pinheiro da Silva Torres no lugar de Fernanda Montenegro. Até mesmo nomes mais comuns costumam ser trocados. É o caso da atriz Susana Vieira, que na realidade se chama Sônia e pegou emprestado o nome da irmã quando estreou na carreira artística.

No mundo do rock, as coisas não seriam as mesmas se Freddie Mercury fosse chamado por seu nome real: Farrouk Bulsara
No mundo do rock, as coisas não seriam as mesmas se Freddie Mercury fosse chamado por seu nome real: Farrouk Bulsara | Foto: iStock

LICENÇA POÉTICA

Na literatura, é comum autores de sucesso fazerem uso de heterônimos para lançar obras distintas dos gêneros nos quais ficaram conhecidos. Na década de 1940, uma autora de histórias sensuais que eram publicadas em vários jornais brasileiros conquistou inúmeros fãs e chegou até a receber um pedido de casamento enviado pelo correio. Mas na realidade, os textos assinados pela sedutora Suzana Flag eram escritos pelo polêmico jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues.

Nelson Rodrigues conquistou grande público usando o pseudônimo Suzana Flag, feminino e sedutor
Nelson Rodrigues conquistou grande público usando o pseudônimo Suzana Flag, feminino e sedutor | Foto: U.Dettmar/Folhapress

Conhecida como a Rainha do Crime, Agatha Christie também adotou um heterônimo ao assinar como Mary Westmacoott em seis romances publicados entre os anos de 1930 e 1956. No entanto, o mais famoso escritor a lançar obras como outra persona foi Fernando Pessoa, que já lançou livros como Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares.

DE VOLTA AO SIMPLES

A escolha de nomes artísticos na música brasileira tem mudado ao longo do tempo. Houve uma época em que estrangeirismos dominavam a cena. Fábio Jr., por exemplo, gravou seu primeiro disco, em 1979, com o nome de Mark Davis. A tendência atual, entretanto, é a retomada de nomes ou apelidos básicos, como dos cantores Jão, Criolo e Silva.

O cantor e compositor londrinense Gabriel Souza optou pelo conceito da simplicidade ao se lançar no meio musical apenas como Souza. “Percebo que há essa tendência por nomes mais curtos e diretos. Acho que a escolha do nome ajuda na identidade do trabalho do artista. No meu caso, eu já tinha esse apelido e aproveitei para resgatá-lo quando comecei a lançar minhas próprias canções na internet no ano passado. É também uma forma de diferenciar meus trabalhos como artista e como psicólogo”, argumenta.

Enquanto se prepara para lançar seu primeiro EP nos próximos meses, Souza trabalha na divulgação do clipe “Dois Navios”, que pode ser visto no canal dele no Youtube. A canção autoral que transita pelo folk e a música brasileira, foi composta em meados de 2013, inspirada por um contato seu com um aforisma de Nietzsche, no livro "Gaia Ciência", em que filósofo fala sobre amizade.

Confira o clipe de Souza "Dois Navios"

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