Artista recicla resÍduos urbanos
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quinta-feira, 25 de setembro de 1997
Telma Elorza Londrina 
ReproduçãoPaulo Menten faz em Londrina a segunda exposição do ano depois de quatro anos de pausaDepois de quatro anos sem mostrar seu trabalho em Londrina, o artista plástico e gravador Paulo Menten preparou uma surpresa para a cidade, com três exposições em 1997. Em junho, mostrou uma retrospectiva de sua carreira, na comemoração dos seus 70 anos. Agora traz uma exposição de gravuras inéditas, com vernissage hoje, às 20h30, no Espaço Cultural Banestado. Para completar, prepara outra grande exposição - a ser realizada ainda este ano - em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura.
Segundo Menten, este períoindo de matriz não foi proposital, apenas aconteceu. Se atendesse todos os convites, teria exposições individuais a cada dois meses. Mas é muito desgastante. E acho que agora é que chegou a hora de mostrar - diz.
Na exposição que abre hoje Menten apresenta cerca de 30 gravuras em metal, divididos em duas séries: Fragmentos Arqueológicos Urbanos e Santos. São trabalhos que foram produzidos, em sua maioria, este ano. Um dos trabalhos fiz em 95, o restante este ano. Só uma não é inédita, foi mostrada em minha retrospectiva - conta.
Na série Fragmentos Arqueológicos Urbanos, o artista resgata uma linha de pesquisa que vem desenvolvendo há alguns anos. Esta é uma série que nasceu em 93, 94, e venho trabalhando nisto até agora, mas com interrupções. Pego, largo, volto a trabalhar. Faço muitas coisas simultaneamente - explica.
Uma bandeja serve de matriz para a gravura em metal: reciclagem é a palavra de ordem na arte de Paulo Menten
Paralelo Neste trabalho, Menten reaproveita a sobra de lixo urbano moderno e cria, com eles, um paralelo com os fragmentos arqueológicos, principalmente gregos. Historicamente, o mundo tem um cuidado especial e enorme com culturas antigas e esquece, até despreza, os resíduos arqueológicos recentes: Uma panela, por exemplo, que, depois de anos de uso, vai para o lixo e sofre a corrosão do tempo - conta.
Panelas, leiteiras, luminárias, bandejas velhas e bacias furadas, tudo pode servir de matriz para Menten. Com são côncavas e convexas, eu as corto em locais estratégicos. Com elas, faço impressões em metal e algumas que imprimo com técnicas de xilogravuras, o que dá um relevo próprio - explica.
A maior parte das gravuras em metal com técnica de xilo está na série Santos. Esta, aliás, traz imagens da infância do artista. Desde pequeno, aquele antigo mastro das Festas Juninas, com as imagens de São Pedro, Santo Antônio e São João, me impressiona muito. As imagens dos santos é algo que gosto de trabalhar mas sempre de uma maneira meio irreverente - diz.
Nesta série. Menten resgata seu lado poético e saudosista com imagens que lembram litogravuras do século passado, com Nossa Senhora descalça e Cristo martirizado. O Cristo, aliás, traz um quê de Idade Média. A irreverência maior fica, porém, com Santo Antônio ao centro de um casal nu. Santo Antônio não é o santo casamenteiro? O amor, na minha opinião, acaba levando ao sexo - afirma.
Além desta exposição, Paulo Menten está preparando outra para o final do ano, que vai mostrar, inclusive, o primeiro quadro que pintou, além de objetos e matrizes com que trabalha. Acho que temos que pensar também no lado educativo. Uma sociedade só é rica se consome a cultura que produz. E, infelizmente, a cultura gerada aqui é desprezada - lamenta. Mas o artista não se limita a Londrina. Está preparando também duas séries que serão expostas no exterior. Uma delas, sobre Canudos, reúne 60 gravuras. Estou trabalhando como nunca - garante. Sorte nossa.


